A volta da América Latina como sede revigorou o Fórum Social Mundial, mas nem a proximidade dos governos antineoliberais nem a crise econômica resolveram a dúvida que atormenta parte de seus organizadores: para onde vai e o que quer o Fórum Social Mundial?

Nascido em 2001 em Porto Alegre para buscar uma alternativa à globalização e como um espaço de oposição ao Fórum Econômico Mundial de Davos (Suíça), o FSM ganhou fôlego nesta oitava edição, em Belém, pelo “enfraquecimento do capitalismo” trazido pela crise e pela presença de cinco presidentes latino-americanos –Evo Morales (Bolívia), Hugo Chávez (Venezuela), Rafael Correa (Equador), Fernando Lugo (Paraguai) e Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo o francês Bernard Cassen, um dos pais do FSM, a importância não foi só a presença política, mas o fato de os presidentes –com exceção de Lula, diz– levarem adiante políticas para romper com o neoliberalismo. “Esses presidentes mostram, inclusive para a Europa, que para colocar em prática o que o fórum prega precisa-se só de vontade política.”

Mas a força trazida pelo viés político-partidário –ao qual o FSM nunca quis se vincular– e pela crise do maior inimigo do evento, o “capitalismo selvagem”, apenas esconde o que Cassen define como “um cansaço” no modelo do FSM: ser um espaço aberto a todos os movimentos e organizações que buscam “um outro mundo possível”, sem deixar que tal abertura seja comprometida por decisões políticas.

Segundo seu Conselho Internacional, o FSM é uma nebulosa de movimentos sociais, sem posições unificadas.

Cassen, assim como Emir Sader, outro organizador do FSM, e o intelectual português Boaventura de Souza Santos, defendem que haja posições comuns. “É um dilema essencial do fórum a decisão de permanecer na intranscendência do intercâmbio de experiências a cada ano ou dois anos ou avançar na construção de alternativas”, afirma Sader.

Para Boaventura, a consequência da falta de um consenso no FSM o fez deixar de ter a influência ou exercido a pressão que se desejaria sobre as decisões políticas. “Se o mundo não puder conhecer a posição do FSM [sobre questões como o conflito em Gaza ou as saídas para a crise global] é de prever que o FSM corra o risco de se tornar irrelevante”, diz.

Já Cassen propõe que o FSM siga como um espaço de discussão, “mas é preciso que, ao lado dele, movimentos sociais, governos e partidos políticos definam ações concretas”.

Do outro lado –o que defende que o FSM é o que precisa ser, um espaço para discussão– está outro pai do evento, Oded Grajew. “Já vi muita coisa acabar por causa disso”, diz ele, referindo-se à tentativa de forçar posições comuns.
Folha Online