IstoÉ

Na próxima semana, o exministro José Dirceu vai a Goiânia e a Palmas. Segue depois para Belém e outras cidades do Norte. Além de mobilizar a militância petista, o alvo preferencial de suas articulações é o PMDB.

Nesta entrevista, Dirceu diz que 2010 “não será uma eleição fácil”. Por isso, atribui especial importância aos acertos do PT com os peemedebistas na Bahia, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e até mesmo em São Paulo. “Muitos políticos do PMDB não querem a aliança com Serra e eu pago para ver o Serra cumprir o acordo com o Quércia”, explica.

Como revelou ISTOÉ na última edição, Quércia fez acordo com o governador paulista e tem viajado pelo País com o objetivo de levar o PMDB para a candidatura tucana. Dirceu acompanha com faro fino os movimentos dos tucanos: “O Aécio tem dito a interlocutores que não será vice de Serra. E, se o Serra não tiver apoio do Aécio, ele não ganha a eleição.”

Na opinião do ex-ministro, Aécio não cederá a vez a José Serra “porque ninguém quer enfrentar o presidente Lula em 2014″. Quanto a seus próprios projetos políticos, Dirceu, que hoje ganha a vida como consultor de empresas, sonha com a absolvição no STF e a anistia da Câmara. “Se tudo der certo, posso me candidatar em 2014. Mas ainda é muito cedo para falar disso”, diz.

ISTOÉ – Após a divulgação da doença da ministra Dilma Rousseff, surgiram comentários de que o PT tem um plano B. É verdade?
José Dirceu – A candidatura de Dilma Rousseff se consolidou no PT. Já visitei quase 20 Estados e é o que eu vejo. Ela também avança, mais do que prevíamos, no eleitorado. Eu tinha escrito no meu blog que na Semana Santa ela teria 15%.

No Carnaval, ela bateu nesse percentual. Na minha avaliação, Dilma vai encostar no Serra antes do ano que vem. Descoberto um linfoma na ministra, ninguém piscou no PT. Também não vi aliados propondo plano B ou plano C. Muda só no sentido de se adequar a agenda de Dilma ao tratamento.

ISTOÉ – E a agenda de 2014?
Dirceu – No Brasil, a legislação não proíbe o presidente de retornar. No México, é um mandato só, não há reeleição. Nos Estados Unidos são dois mandatos e o presidente não volta. No Brasil, a legislação já é liberal demais.

ISTOÉ – Na viagem à Turquia, o presidente Lula disse que pode voltar em 2014.
Dirceu – Ainda é cedo para dizer. Temos que ver o que será bom para ele e para o Brasil. Primeiro para o Brasil, depois para o PT, e depois para ele em 2014. Eu vejo que Lula tem legitimidade para voltar em 2014.

ISTOÉ – Quais são as credenciais da ministra Dilma Rousseff para disputar a Presidência?
Dirceu – Uma história política comprometida com a democracia, com a esquerda democrática socialista, a experiência administrativa, seu papel no governo do presidente Lula e o apoio que ela tem do PT e do presidente. E o presidente tem a legitimidade que o País lhe dá para apoiar sua candidata e elegê-la. Não será uma eleição fácil. Será tão difícil como foram as eleições de 2002 e 2006, mas não vejo o País querendo que a oposição volte ao governo. Não vejo o País querendo devolver o poder ao PSDB, muito menos para um tucano paulista.

ISTOÉ – As pesquisas mostram José Serra na frente, com mais de 36% das intenções de voto.
Dirceu – O Lula já esteve em primeiro lugar nas pesquisas, duas vezes, e perdeu a eleição. O quadro não está definido. Acho que o Aécio Neves tem condição de disputar com o Serra o voto no País. Os dois têm legitimidade presidencial, experiência política e de governo. E o Ciro Gomes também tem votos para aspirar a ser candidato no seu partido.

ISTOÉ – Não é possível o governador Aécio Neves sair candidato pelo PMDB?
Dirceu – Se ele fosse para o PMDB, correria o risco de não ter depois a legenda do partido. O PMDB já fez isso. E quem garante que ele vai ganhar uma convenção do PMDB?

Além disso, se o Aécio mudar de partido, o Serra vai declarar guerra total e ele tem peso dentro do PMDB. Existem duas certezas: Aécio não será vice de Serra nem irá para o PMDB.

ISTOÉ – Então Aécio terá de enfrentar Lula em 2014?
Dirceu – Essa é exatamente a razão pela qual o Aécio não aceita ser vice do Serra. Ele diz assim: “Você quer que eu seja vice hoje e enfrente o Lula em 2014? Então, vamos fazer o contrário.” Ninguém quer enfrentar Lula em 2014.

ISTOÉ – Mas uma aliança Minas-São Paulo seria muito forte, não?
Dirceu – É forte, mas o eleitorado de Minas tem dificuldade em votar num candidato do PSDB de São Paulo. Já aconteceu, em 2002 e em 2006. Acho que a ministra Dilma tem grandes vantagens que não estão sendo levadas em conta. O voto feminino, que terá um peso forte na eleição, que será definida por uma margem pequena. E o voto no Sul. Além disso, há a presença do presidente Lula na campanha. Lula fará a campanha da ministra Dilma como se fosse para ele.

ISTOÉ – O sr. acredita na transferência de votos do presidente Lula?
Dirceu – Acredito. Já está acontecendo. Dilma está na frente do Serra em Pernambuco, se bem que Pernambuco é um caso à parte. Lá o Lula estava com mais de 90% de aprovação. E no Rio Grande do Sul ela também já passou o Serra.

ISTOÉ – Por que o apoio do PMDB é tão fundamental?
Dirceu – O PT e o PMDB podem eleger mais de 200 candidatos na Câmara, uns 35 senadores e criar uma base muito forte para o governo. Precisamos crescer na Câmara e no Senado para dar maior governabilidade, sem desrespeitar, claro, os direitos da minoria. O PMDB não tem voto nacional, não passou de 5% com Ulysses Guimarães e Orestes Quércia, mas é o maior partido do País em deputados e senadores. Tem sete governadores e o maior número de prefeituras e vereadores. Acredito que temos condições de ter o apoio do PMDB. Eles não vão apoiar o José Serra, no máximo vão ficar ao lado. Nós vamos trabalhar para o PMDB apoiar a ministra Dilma. Por isso é importante para o PT construir palanques com o PMDB nos Estados.

ISTOÉ – Porém, há problemas em alguns Estados. Em São Paulo, por exemplo, o ex-governador Orestes Quércia apoia Serra.
Dirceu – Em São Paulo, nós temos que disputar a base do PMDB e temos condições de disputar. Muitos deputados, prefeitos e vereadores não querem apoiar José Serra, não querem a aliança. E o Serra, o PSDB e o DEM têm que cumprir o acordo com Orestes Quércia, de ele ser o candidato único ao Senado.

Eu pago para ver o Serra cumprir o acordo com o Quércia. E mais: existe uma disputa entre três précandidatos ao governo estadual: Geraldo Alckmin, Aloysio Nunes Ferreira e Gilberto Kassab. Não está decidido quem será o candidato. Não vai ser assim tão simples.

ISTOÉ – E, na Bahia, o sr. já conversou com o ministro Geddel Vieira Lima. Ele pode sair para o Senado para não ameaçar a reeleição do governador Jaques Wagner?
Dirceu – Eu conversei com o ministro Geddel, mas já faz um tempo. Estou inclusive para procurá-lo para outra conversa. Onde o PT governa é natural que dispute a reeleição. Acho que o Geddel quer ser candidato a senador. Mas ele alega que há riscos de o PT lançar um candidato que concorra com ele.

ISTOÉ – O PT, então, não terá candidato a senador na Bahia?
Dirceu –
Depende. Temos que fazer pesquisa, analisar, porque lançar um candidato isolado também pode ser errado. Já tivemos experiência de lançar candidato fraco e perder a eleição exatamente por isso.

ISTOÉ – O cenário em Minas Gerais também está complicado?
Dirceu – Lá a situação é difícil para todos. Para o Aécio, que pode não eleger o sucessor porque há candidatos fortes tanto no PT quanto no PSDB. Para nós porque no PT há uma disputa política natural pela candidatura e por divergências na condução da sucessão em dois setores do partido. Não se trata de uma disputa pessoal entre o Fernando Pimentel e o Patrus Ananias, como às vezes aparece. É uma disputa política. E o Hélio Costa, legitimamente, lançou a candidatura dele ao governo. Vamos trabalhar pela unidade do PT e do PT com o PMDB.

O Pimentel tem uma situação confortável nas pesquisas e com o apoio do Patrus pode crescer ainda mais. No Rio, estamos caminhando para a unidade. O Lindberg Farias não retirou a candidatura, mas tem disposição para construir um acordo.

ISTOÉ – Quais são os seus próprios projetos na política?
Dirceu – Acima de tudo, eu queria que o meu julgamento no STF fosse o mais rápido possível. Na prática, estou cumprindo pena. Sou considerado culpado pela imensa maioria das pessoas. Se eu conseguir a absolvição e a anistia na Câmara, posso me candidatar em 2014. Mas posso também não me candidatar. Ainda é cedo para falar de uma candidatura. O que eu quero é provar a minha inocência.

ISTOÉ – Mas parece óbvio que o sr. tem vontade de voltar a uma vida política plena.
Dirceu – Eu faço política mesmo sem mandato.

ISTOÉ – Como vão suas relações com o presidente Lula?
Dirceu – As relações são ótimas. Conversamos quando ele considera necessário. Quando eu considero, demando se ele pode me atender. Eu tenho a amizade dele, o apoio dele, e sempre tive o afeto dele. Sou grato ao presidente e me sinto realizado pelo governo que ele está fazendo.

ISTOÉ – Em suas atividades profissionais, o sr. é consultor do bilionário mexicano Carlos Slim?
Dirceu – Tenho 45 anos de vida pública. Eu conheci o Carlos Slim, em Campos do Jordão, em 2004, na reunião Ibero-americana, na qual também estava o venezuelano Gustavo Cisneros. Tornei-me amigo dos dois empresários. Fiz várias análises e muitas delas se confirmaram. Ganhei o respeito deles. Não faço consultoria para o Slim. Mas agradeço os comentários a respeito, porque a minha carteira de pedidos de consultoria cresce. Não tenho tempo nem disposição para atender todos porque hoje estou me dedicando muito mais ao PT e à política do que à consultoria.