“Brésilien, brésilien”, afirma Roger Nascimento enquanto aponta as duas cruzes que ocupam um destacado pedaço do seu quintal em Uidá, Benin, na costa oeste africana. Fala em voz alta e com orgulho. Sorri. Assim é como normalmente se expressam os agudás, descendentes de escravos ou mercadores que regressaram à África no século 19, principalmente depois do fim da escravidão no Brasil.

Nas duas tumbas de cimento, entre mangueiras e coqueiros, estão sepultados dois brasileiros, o avô e o bisavô de Roger. Provavelmente mulatos, já que “monsieur Nascimentó”, como é conhecido na vizinhança, insiste: “Não eram como eu. Eram amarelos, amarelos como você”, afirma, enquanto raspa com a mão o prato com um apimentado arroz com galinha, o café da manhã usual nesta região conhecida como a Costa dos Escravos.

Os brasileiros que desembarcavam em Uidá não chamavam a atenção só pelo tom de pele. Ao chegar ao porto do qual seus antepassados haviam saído como mercadoria (muitos trocados por búzios, uma moeda usual na época), os imigrantes exibiam conhecimentos que os aproximavam dos europeus.

Sabiam erguer casas de alvenaria, usar talheres, trabalhar a madeira e eram bons negociantes. Influenciaram a culinária local, onde hoje se encontra a “feijoadá”, o”kousido” e a “cocadá”.

Estima-se que 10% dos 8 milhões de habitantes de Benin pertençam a famílias afro-brasileiras como os Nascimento, os Silva e os Rodrigues. O nome de 102 delas está registrado em duas placas na Casa do Brasil, um museu na entrada de Uidá.

Os que se dedicaram à exportação fixaram-se em residências simples, mas com amplos pátios, onde hoje alguns de seus descendentes vivem da criação de animais. É o caso da versão africana dos Silva (aqui se diz Silvá).

Em um terreno de 250 metros quadrados na periferia de Uidá, este casal com cinco filhos mantém uma produção intensiva. São 40 patos, 10 porcos, 80 frangos, 16 bodes, 15 pombas e duas chinchilas. “Temos 14 coqueiros e ainda sobra espaço para cinco cachorros e este aqui”, diz François da Silva, 50 anos, pai de cinco filhos, agarrado a Sengi, o macaco de estimação.

Segundo o governo de Benin, a metade dos 8 milhões de habitantes pratica o vodu, reconhecido como religião oficial em 1996. Sob este aspecto, ter os parentes enterrados no quintal pode ser considerado uma facilidade, já que a eles são normalmente dirigidos aos sacrifícios.

TUMBAS
Nascimento conserva a 15 metros das duas tumbas uma salinha com um altar coberto pela cera de velas. Em frente, sobre dois potes de cerâmica, balançam três caveiras de bode. “A cada dois anos refazemos o sacrifício. Pedimos proteção”, explica. O mesmo costume tem o seu vizinho, Charles Luciano Rodrigues, este um descendente de portugueses que viviam no Brasil da venda de escravos. “Meu avô e meu bisavô eram traficantes como eu. Só que eu, antes de me aposentar, vendia coca”, diz em bom inglês. Coca-cola? “Não, cocaína.”

Rodrigues, 69 anos, foi traficante de drogas na França nos anos 70. Conta que aprendeu italiano e inglês vendendo cocaína na Europa. Mas voltou a Benin, onde teve quatro filhos. Quando alguém aparece perguntando sobre a relação da sua família com o Brasil, ele levanta uma pedra, retira uma grande chave e, com dificuldade para caminhar, afasta as lagartixas do lugar e gira a fechadura de uma sala. Quando abre a janela, aparecem 22 retratos. Todos Rodrigues. “Este era português, este brasileiro, este português, este brasileiro”, discorre.

No centro da sala estão algumas velas e uma garrafa de rum, usadas nas oferendas. “Quer um trago?”, pergunta. Rodrigues vive sozinho com a esposa e a única expressão que conhece em português é “bom dia”. Não é uma exceção. Embora os descendentes se orgulhem da relação com o Brasil, o conhecimento sobre o país vai pouco além dos jogadores de futebol. Alguns pensam até que fica na Europa.
Estadão