Josué Maranhão

Esse é o “cara”! Pelo menos ele empresta sua trajetória de vida para moldar a triste cara do Brasil.

Filhinho de papai rico, ganhou de presente um mandato de deputado. Montado na imunidade parlamentar, abusou na direção e teve a sua carteira de habilitação suspensa. Mas isso é pena que vale para os pobres mortais. O “cara” continuou dirigindo normalmente. Naquela noite, “encheu a cara” no restaurante e, já bêbado, recusou a oferta do amigo que quis lhe dar carona. Disparou pelas ruas a mais de 150 km por hora. Literalmente atropelou o automóvel em que estavam dois jovens e os matou. Um deles foi degolado. Transferido da cena do crime para São Paulo, certamente temendo a revolta popular, o “cara” é mantido internado em um hospital de luxo.

A sua última façanha foi a renúncia ao mandato de deputado. Blefa, imaginando que o povo é bobo, dizendo que renunciou para responder pelos crimes como qualquer outro cidadão brasileiro. Conversa fiada! Renunciou para não ter o mandato cassado e ficar impossibilitado de exercer cargo político durante oito anos.

A manobra não é novidade. Vários parlamentares usaram a artimanha. Até um famoso, “rei da Bahia”. Renunciou ao mandato de senador, temendo a cassação certa e, pouco tempo depois, voltou ao Senado “lépido e fagueiro” abusando da bazófia que lhe era peculiar. Agora, certamente, os mais carolas devem dizer “Deus o tenha”. Também era o “cara”.

Um outro, “vice-rei da Amazônia”, useiro e vezeiro no uso ilícito dos recursos da falecida SUDAM, encurralado pelas denúncias de crimes, também renunciou ao mandato de Senador. Logo em seguida voltou ao Congresso como Deputado Federal. No rápido hiato chegou a ser preso, apareceu algemado na televisão, acusado da prática – como não podia deixar de ser – de atos de típica desonestidade. Está lá no Congresso Nacional, como “lídimo” representante do povo e um daqueles que monitoram a chamada “base governista”. Típico “cara”

A lista de nomes daqueles que usaram o ardil que garante a impunidade e, em seguida, readquiriram o título de “ilustre” parlamentar, de “Sua Excelência”, é imensa.

Não se deve ser injusto. Esses usaram de um dos vários estratagemas para burlar a lei e fugir do caminho da cadeia. Há outros, no entanto, não menos ilustres e, para efeitos oficiais, “homens probos”.

Há o caso daquele Senador que ficou famoso, entre outras ilicitudes, quando deu em garantia de financiamentos recebidos de banco oficial, as suas fazendas que somente existiam na atmosfera, navegavam ao sabor do vento. Jamais foram encontradas, quando o compromisso não foi honrado. A façanha não o impede, no entanto, de ter sido ministro em dois governos e, atualmente, ser líder de senadores. Além disso, tem a desfaçatez de aparecer frente às câmares falando e fazendo pose de homem sério e honesto.

Agora, ao que se anuncia, o insigne Senador será relator de uma importante CPI destinada a apurar irregularidades na aplicação de dinheiro público. Logo ele? Como é “cara”!

Por falar em CPI da Petrobras, não há dúvida que os seus integrantes foram escolhidos através de um critério único: as respectivas folhas corridas.

Além do ilustre Senador já aludido, dela também faz parte como manda-chuvas um outro que, afora várias estripulias fora da lei, se especializou em delegar a um lobista a obrigação de manter a sua ex-amante e a sua filha fora do casamento. No reboliço do escândalo, outras traquinagens vieram à luz. Foi perdoado pelos “retos” pares do Senado. Típico “cara”

A mais importante escolha para a tal CPI, sem dúvida, é daquele Senador que ficou conhecido como “Caçador de Marajás” e que foi escorraçado da presidência da República como responsável pelo maior esquema de corrupção jamais montado no Brasil. Aliás,a aberração era tamanha que os detalhes escabrosos vieram à toma através da palavra insuspeita do irmão do “dito cujo”. Padrão de “cara”.

O que se pode esperar de uma Comissão Parlamentar de Inquérito que tem, entre seus onze membros, nada menos do que oito ilustres Senadores que respondem, perante o Supremo Tribunal Federal, a ações penais ou inquéritos relativos à acusação da prática de ilícitos? É óbvio que nada lhes acontecerá. Afinal, o STF em sua existência secular, jamais mandou para a cadeia um parlamentar. São “caras” que deveriam estar mofando no xilindró.

Finalmente, para melhor ilustrar o retrato das hostes políticas nacionais, ninguém pode esquecer o preclaro presidente do Senado, o ex-presidente da República. Fazendo pose de imaculado, teve o desplante de vir a público pedir desculpas por haver recebido indevidamente, verbas destinadas ao custeio de moradia às quais ele não fazia jus. Coitado, precisa, sem dúvida, trocar de óculos, pelo menos para ter melhor visão quando for examinar o extrato de sua conta bancária onde são depositados os seus polpudos proventos. Há um detalhe importante: o valor da “ajuda” mensal que o “cara” recebia, R$ 3.800,00, é maior que a renda per capita anual no seu Estado.

Não há dúvida, portanto, que não é das melhores a “cara política” do Brasil.