Carta Capital

A duração e a profundidade da crise econômica mundial ainda divide os especialistas, mas o seu efeito sobre a confiança dos consumidores em todo o planeta é bastante nítido: o desemprego, que era apenas a quarta maior preocupação global há dois anos, atrás de violência, pobreza e corrupção, consolidou-se como o tema que mais atormenta a população.

Esta é a principal conclusão da quinta edição do Global@advisor, levantamento semestral realizado desde maio de 2007 pela Ipsos, empresa multinacional de pesquisa de origem francesa, para medir o nível de confiança de consumidores de 23 países ao redor do globo. O relatório com as conclusões do questionário aplicado pela internet a 23 mil pessoas, em abril de 2009, será divulgado mundialmente no sábado 6 de junho.

É a primeira vez que um dos assuntos da agenda global, reunião dos grandes temas que merecem a atenção da população, é citado por mais da metade dos entrevistados: 53% disseram ser a falta de emprego o assunto que traz mais preocupação no dia a dia. Na comparação com maio de 2007, data de divulgação da primeira pesquisa, um terço dos entrevistados colocava o desemprego como fator preocupante, total que subiu para 42% na quarta edição do levantamento, realizada em novembro de 2008 e, portanto, já sob os efeitos consolidados da tormenta financeira global.

“As ondas da pesquisa ajudam a entender como a agenda mundial vai se transformando conforme um evento com a magnitude da crise econômica se desenrola”, avalia Paulo Cidade, diretor da Ipsos Public Affairs no Brasil. “É possível observar como as mudanças na economia alteram a percepção dos consumidores sobre aquilo que mais os aflige. Quando não havia a tormenta no horizonte, a violência, a pobreza e a corrupção eram fontes maiores de preocupação.”

Os problemas surgidos após a debacle de várias instituições financeiras, em especial nos Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão, permeiam o relatório da Ipsos. Mas ele não é feito apenas de más notícias.

O levantamento mostra que, apesar de uma pequena queda no geral em relação a novembro de 2008, a confiança do consumidor global começa a se estabilizar, com nítidos sinais de otimismo em países como a Itália, em que o porcentual das pessoas que acham que a economia está muito boa ou boa passou de 10% para 17%. Os EUA também mostram uma leve reação, passando de 11% para 13%. Na média geral dos 23 países onde a pesquisa foi realizada, a confiança caiu de 31% para 29%.

Para Cidade, o crescimento da confiança no país tido como o epicentro da turbulência financeira mostra as diferenças no tempo de reação das pessoas para eventos que modificam o cotidiano.

“O fato de os EUA registrarem esse crescimento é bastante significativo, pois sinaliza esperança em relação à economia, que o pior já passou. Lá, as pessoas viram a crise muito de perto e se mostravam pessimistas no levantamento anterior. É exatamente o inverso do que aconteceu com o brasileiro.”

Também no Global@advisor o Brasil é um ponto fora da curva. Se no levantamento divulgado no fim de 2008 o País chamava atenção por ser o único entre os 23 pesquisados em que a confiança sobre a economia seguia em alta, nesta quinta onda do relatório o otimismo brasileiro arrefeceu. Registrou uma queda de 61% para 56%.

“Em novembro do ano passado, choveram ligações para nosso escritório aqui no Brasil, todos querendo saber qual era a história por trás desse otimismo aqui, essa coisa de o mundo estar caindo e aqui as pessoas acreditando que tudo estava bem”, conta Cidade.

“Não dá para falar em descolamento da realidade, porque os sinais de que tudo estava indo bem eram muito reais, eram palpáveis. No fim de 2008, o Brasil não tinha um fato concreto que materializasse a crise, havia razão para que a percepção fosse de euforia, de confiança. E essa percepção era baseada no crescimento que ainda estava em curso.”

Segundo o analista, esta é a razão para a variação negativa na confiança do brasileiro na mais atual rodada da pesquisa. Trata-se de um ajuste de expectativa de quem está tendo plena consciência dos efeitos da crise com atraso em relação à maioria dos países.

“Por contraditório que pareça, ainda mais se percebermos que, de fato, o Brasil tende a passar de maneira estável pela turbulência mundial, esse ‘pessimismo’ na avaliação da economia é esperado. Tivemos muitas demissões no fim de 2008 e começo de 2009. Mesmo com a recuperação de alguns postos de trabalho a partir de abril, maio, o desemprego foi uma ameaça real, e ele com certeza ainda é uma lembrança forte para muitos brasileiros, que sofriam com a falta de vagas nos anos 1980 e 1990.”

A preocupação com o desemprego no País tem uma dimensão bem palpável quando se observa a porcentagem de brasileiros que dizem conhecer alguém demitido em razão da tormenta financeira. O índice é muito semelhante ao dos EUA – 77% e 80%, respectivamente. Nos outros emergentes que formam o BRIC a proporção é semelhante. Na China, 82% diziam conhecer alguém demitido. Na Índia, o porcentual é de 80%. Na Rússia, 76%. A média mundial é de 71%.

Entre o bloco de afinidade composto por Brasil, Rússia, Índia e China, os indicadores parecem divididos em duas partes. Chineses e indianos destacam-se pela confiança em seus países. Três quartos dos pesquisados na China acreditam que o governo está tomando as medidas certas para enfrentar os efeitos da crise, porcentagem que na Índia é de 56%, ambos muito acima da média global, que registra somente 34% dos consumidores confiantes nas ações do Estado. Brasil e Rússia ficam abaixo do padrão mundial, com 31% e 26%, respectivamente.

Outra peculiaridade é o medo que os brasileiros têm de a crise restringir as exportações: 83% dos entrevistados temem que as medidas anticrise de outras nações possam prejudicar a venda de produtos made in Brazil no exterior, o maior índice entre as 23 nações pesquisadas. O receio tem alguma reciprocidade lógica: apenas 45% dos brasileiros acham que o governo deve restringir as importações, número abaixo da média global, de 54%.

O posto de nação mais confiante em si mesma para vencer os efeitos da tempestade dos mercados financeiros é da China, onde 92% acreditam que o país fez o suficiente para a retomada do crescimento econômico, quantidade muito acima da média geral de 32%.

Os italianos são os que menos confiam no gigante asiático, com apenas 16%. Pode-se até argumentar que se trata de excesso de autoconfiança, mas os chineses estão entre os que mais confiam também nos EUA (55%, ante 44% dos próprios estadunidenses) e na UE (69%, acima dos 51% da Itália, país do bloco que tem mais crença na recuperação da União Europeia).

A pesquisa ainda traz peculiaridades difíceis de ser compreendidas, como o caso da Turquia, para quem a culpa pela crise financeira mundial é muito mais dos Estados Unidos como um todo – se somadas as culpabilidades das administrações Bush e Obama com a do governo americano, chega-se aos 55% – do que dos funcionários de instituições financeiras e bancárias, (apenas 19%). Já na média global, 40% culpam banqueiros e financistas, enquanto 29% creditam a turbulência aos Estados Unidos.

De acordo com Cidade, a explicação para essa discrepância pode ser a combinação de dois fatores bastante diferentes: “No caso da Turquia, pode haver um componente de fundo ideológico, o antiamericanismo, que parece ser bastante presente neste caso. Além disso, há a possibilidade de os turcos terem uma boa impressão de seu sistema bancário, como é o caso dos brasileiros, para quem somente 27% da culpa é do setor financeiro. Mas não creio que apenas um fator explique esse posicionamento”.