Josué Maranhão

Ingressei no mundo jornalístico há exatos 56 anos. Obviamente, não tinha diploma de jornalista, coisa raríssima àquele época. Aliás, não tinha nenhum diploma, o que era inviável, considerando a minha idade então. Também era utopia imaginar fazer curso de jornalismo naquele tempo. Havia apenas um curso, na Faculdade de Comunicações da Fundação Casper Líbero, criado em 1947. Enquanto isso, eu vivia muito distante de São Paulo, no longínquo Nordeste.

A falta do diploma não me impediu de exercer, nas cozinhas de jornais, as mais diversas funções, quer em redações, quer em oficinas, à época bem rudimentares, diferentes da era da informatização e do imenso avanço tecnológico que se verificou no setor.

O fato de não dispor de diploma de curso superior de jornalismo não me impediu de ter registro profissional no Ministério do Trabalho, desde o início dos anos sessenta, logo depois que a profissão foi regulamentada.

Apesar de toda a vivência, do trabalho ininterrupto em jornais durante anos, não tenho a menor dúvida de que, se tivesse que voltar a atuar profissionalmente, se retornasse a uma redação, tentaria fazer o curso superior de jornalismo.

O fato de ter sido, também, professor na primeira faculdade de jornalismo fundada na cidade onde vivia, no Nordeste, nos anos sessenta, não seria empecilho ao meu retorno à escola.

Faria o curso de jornalismo em busca dos conhecimentos teóricos que, na época atual, entendo que são de relevante importância para o exercício da profissão.

Mesmo assim , confesso que não considero estudar jornalismo em curso superior como condição indispensável para o exercício da profissão.

Aliás, o fato de não ser mais exigido diploma de curso superior para exercer a profissão, iguala os jornalistas aos ministros do Supremo Tribunal Federal.

O ingresso na magistratura, desde juiz em primeira instância, até o Superior Tribunal de Justiça, depende, obrigatoriamente, de ser o candidato bacharel em direito.

A exigência, no entanto, não existe para o cidadão se tornar ministro do Supremo Tribunal Federal. Não é necessário ter feito curso de direito, ou qualquer outro curso superior.

Os únicos requisitos estabelecidos pelo Art. 101 da Constituição Federal, para alguém se tornar ministro do STF, são: ter “reputação ilibada” e “notável saber jurídico”.

Nem sequer as duas condições são necessariamente respeitadas. Isto, com certeza, explica o fato de que eu tenha conhecido ministro do Supremo Tribunal Federal sem conhecimentos jurídicos tão admiráveis e profundos e, muito menos, com os antecedentes pessoais limpos e puros.

Voltando ao assunto, entendo que o curso superior de jornalismo não é indispensável para que alguém se torne jornalista e, mais ainda, um bom jornalista. O embasamento cultural pode ser adquirido de diversas outras formas.

Argumentar que os princípios éticos são adquiridos no curso de jornalismo é balela.

Não existe curso ou escola que possa transformar a picareta que o pilantra usa, em caneta, computador, ou qualquer outro instrumento necessário ao exercício do jornalismo.

Condição indispensável, sem dúvida, é o talento. Isto nenhuma escola consegue introduzir na cabeça de alguém. Pode, sim, burilar, aprimorar, mas não cria talento.

O Brasil pode se orgulhar de ter tido jornalistas fantásticos, espetaculares, em todos os sentido, sem que jamais tenham ingressado em um curso superior qualquer e muito menos em escola de jornalismo.

Para ser advogado, médico e engenheiro, por exemplo, o conhecimento técnico e teórico é absolutamente indispensável. Pode até substituir a falta de talento, ou de vocação.

A exigência de curso superior de jornalismo era bem mais uma evidência do espírito cartorial, burocrático, corporativista e, principalmente, de fundamental importância para pelegos e dirigentes sindicais, de modo geral.

Era uma reserva de mercado, absolutamente esdrúxula. Os jornalistas mais famosos mundialmente, aqueles que tiveram trabalho premiado, inclusive com o famoso Pulitzer e outros láureas, jamais passaram pelos bancos de uma escola de jornalismo. Na maioria dos países, em muitos onde são feitos os melhores jornais e revistas, respeitados internacionalmente, não existe a exigência

O final da necessidade formal de diploma, ao contrário do que se apregoa de forma tão ardorosa e vibrante, sem dúvida, vai permitir que os cursos de jornalismo sejam aperfeiçoados. Certamente os currículos escolares serão aprimorados. Os que tiverem talento serão os maiores beneficiados.

Aperfeiçoados e burilados os talentos, aqueles que tiverem diplomas de curso superior de jornalismo, com certeza, na disputa por emprego na área, sairão disparados à frente de outros candidatos que não tenham certificados comprovando a escolaridade específica.

A capacidade intelectual, junto com o talento, isto sim, são fundamentais na disputa.

A condição de diplomado em jornalismo não é garantia de emprego. Não é difícil encontrar jovens éticos, educados, com bagagem cultural considerável, que lutam por empregos e, principalmente, não conseguem demonstrar o talento, o faro que é essencial para um bom contador de histórias, estórias e casos.