IstoÉ

Há três meses, o apresentador Gugu Liberato, 50 anos, resolveu ceder às investidas da Rede Record. Marcou um almoço no restaurante The Waves, em um hotel em Alphaville, na Grande São Paulo, com os executivos da emissora. Começava, oficialmente ali, um namoro que contou com outro encontro em sua casa, vários telefonemas e um jantar com a presença do bispo Honorilton Gonçalves, vicepresidente artístico da Record, que na ocasião fez uma proposta por escrito a Gugu.

Após 36 anos no SBT, por contrato, Silvio Santos teria a possibilidade de cobrir a oferta. Mas o sinal verde para partir veio do próprio patrão: “Gugu, não vou impedi-lo de ir porque você não vai ganhar esse dinheiro todo em lugar nenhum. Vai!” Na quinta-feira 25 à tarde, o apresentador assinou com a Rede Record. Terá um programa de auditório de quatro horas de duração aos domingos, que deverá ir ao ar entre 18h e meia-noite.

Irá comandar, ainda, um programa de entrevistas semanal. Em oito anos de contrato, receberá R$ 300 milhões, a maior transação de um artista brasileiro. Esse episódio é o ápice de uma guerra pelas estrelas da tevê que envolve as maiores emissoras do País. Há dez anos, não se via nada igual.

Em 1999, a Rede Globo chacoalhou o mercado ao contratar em menos de duas semanas os apresentadores Ana Maria Braga (ex-Record), Serginho Groisman (ex-SBT), Luciano Huck (ex-Bandeirantes) e Cazé Peçanha (ex-MTV). De uma vez, a emissora carioca reforçou seu casting e enfraqueceu a concorrência. Ana Maria Braga, por exemplo, era trunfo na Record, onde, com um programa exibido à tarde, vencia a Globo.

Para piorar a situação da emissora do bispo Edir Macedo, Ratinho assinou com Silvio Santos mesmo tendo um contrato em andamento na casa. O bispo ameaçou adotar comportamento semelhante em relação aos funcionários do SBT. E a batalha começou.

O epicentro do troca-troca na tevê brasileira a que assistimos hoje é a Record. Há um ano, os diretores da emissora chegaram à conclusão de que havia um problema na grade de programação.

“Eles concluíram que a audiência deles no domingo era boa, mas o faturamento, 50% menor do que poderia ser”, afirma um empresário que faz negócios com a Record. Para resolver o problema, tentaram primeiramente Fausto Silva. Mas acabaram por fechar com Gugu, apesar de ele estar preso ao SBT por contrato, o que acendeu a ira de Silvio Santos.

O dono SBT partiu para o contra-ataque, como fizera outras vezes ao ver seus artistas assediados pela concorrência. Na quarta-feira 17, às 19h, Silvio ligou para o publicitário Roberto Justus, que comandava na Record o programa “O Aprendiz”. “Gostaria de tê-lo no SBT”, disse Silvio. Duas horas depois, o publicitário de 54 anos estacionava seu Mercedes-Benz preto na garagem da mansão do maior comunicador do País.

Em três horas de conversa, Silvio, sua filha Daniela Beyruti, diretora-geral da emissora, Justus e seu empresário e CEO da Young & Rubicam, Marcos Quintela, trocaram impressões. Justus lhe disse que gostaria de ter um plano de carreira artístico. Em sete anos na Record, o publicitário transformou “O Aprendiz” em sucesso de audiência e faturamento. Somente na sexta edição, encerrada há um mês e que durou menos de 60 dias, a emissora do bispo faturou R$ 40 milhões.

Ao final da reunião, Silvio se comprometeu a rabiscar números. No sábado 20 de junho, fecharam negócio. Tudo foi resolvido em três dias: sondagem por telefone, conversa pessoalmente, proposta e assinatura de um contrato de quatro anos. Por um programa semanal, o publicitário receberá metade do faturamento da atração, com a garantia de ganhar, no mínimo, R$ 12 milhões por ano.

“Eu morei sete anos debaixo do mesmo teto da Record, mas não oficializaram a união”, disse Justus à ISTOÉ. “Aí, veio uma noiva mais interessante e topei viver o meu primeiro casamento artístico de papel passado”, completa ele, que era contratado por temporada.

Nessa mesma quarta-feira, às 23h, enquanto Silvio flertava com Justus, emissários do SBT colhiam a assinatura da apresentadora Eliana na casa dela, em São Paulo. Aos 35 anos, ela conseguiu multiplicar por seis seu contracheque e fechou um contrato de quatro anos. Eliana receberá R$ 600 mil por mês – na Record, onde estava havia 11 anos e comandava o “Tudo é Possível” aos domingos, seu salário era de R$ 100 mil. Ela recebia outros R$ 100 mil de merchandising.

Eliana e Silvio Santos iniciaram as negociações há dois meses. Ao perceber que as reuniões para a renovação de seu contrato com a Record, que termina em dezembro, não avançavam e sentir em conversas de corredor que a direção da emissora não se animava em oferecer um reajuste melhor, ela e Silvio começaram a se falar por telefone. Eliana jogou com a emoção para se aproximar do antigo patrão.

Ela iniciou carreira em 1991 no SBT, onde ficou durante sete anos até se transferir para a emissora do bispo Edir Macedo. Nas conversas, dizia a Silvio que era prata da casa, que aprendeu muito com ele e seu futuro era lá, onde foi descoberta. Deu certo. Ganhou um programa aos domingos. “Recebi uma proposta do Silvio que me prestigiava”, afirmou Eliana à ISTOÉ. “Sou a única mulher na vitrine dominical com êxito. Tenho orgulho desse feito, mas a guerra de audiência sempre existirá.”

Record e SBT, atualmente, duelam pelo passe de Marcos Mion, que está na MTV e deve fechar com a Record por R$ 100 mil para comandar um núcleo de humor jovem. Mas, ao contrário de dez anos atrás, desta vez a ebulição no mercado atinge todas as esferas. Nomes de peso do vídeo como Fausto Silva, Xuxa e Ana Paula Padrão, além de jornalistas renomados e produtores bem cotados, estão trocando de casa, ganhando reajuste para ficar onde estão ou sendo insistentemente assediados pela concorrência.

“A mesma pessoa que comandou aquelas contratações na Globo em 1999, quando soube que o Gugu estava fechando com a Record, saiu ligando para seus contatos”, conta um diretor de tevê. “Ele estava preocupado em saber se a Record preparava uma ofensiva contra a Globo semelhante à que ele patrocinou.” Tudo leva a crer que sim.

Depois de tentar, sem sucesso, contratar Faustão para as tardes de domingo, a Record, além de trazer Gugu, mira Xuxa Meneghel. “A Xuxa está namorando a Record há um ano”, afirma uma pessoa próxima à apresentadora, que apresenta o “TV Xuxa” aos sábados de manhã. “Ela está aborrecida com o horário que está no ar e, por isso, está atraída.”

O acordo da Rainha dos Baixinhos com a Globo expira em dezembro. A ela, a Record propôs um programa de auditório de três horas de duração, aos domingos à tarde. Garantiram, ainda, um pacote de ganhos superiores aos atuais R$ 2,4 milhões que ela recebe hoje.

Para renovar com a Globo, Xuxa quer entrar na grade de domingo à tarde e pede luvas de R$ 5 milhões na renovação. Este ano, a apresentadora se encontrou três vezes com Érico Magalhães, diretor de recursos humanos da emissora, para discutir uma renovação. Fontes próximas a ela estimam que, se nos próximos dois meses as conversas com a Globo não avançarem, serão iniciadas negociações mais contundentes com a Record.

Xuxa havia recebido uma proposta da emissora do bispo há dois anos e meio, quando renovou seu contrato com a Globo. “Na época, eles não tiveram fôlego para contratar a Xuxa. Agora, estamos mais uma vez ouvindo as propostas”, diz um representante da apresentadora.

“A Record já percorreu parte da estrada. A qualidade da programação subiu muito em relação há três anos.”

Xuxa não se arrepende de ter permanecido na Globo, embora sua percepção, hoje, seja outra. Ela tem acompanhado de perto as conversas com a Record e comentou com amigos: “Será desta vez?” Uma mudança de canal poria um ponto final a um casamento de 23 anos com a Globo. A Record tentou o mesmo com Faustão, que está há duas décadas à frente do “Domingão”. Mas o apresentador preteriu o bispo para permanecer na emissora carioca até 2017, em troca de R$ 5 milhões por mês.

Gugu, ao contrário, sentia-se em uma ilha deserta no SBT. Responsável por 10% do faturamento do SBT (que é de cerca de R$ 650 milhões por ano), ele sofria há quatro anos com a falta de incentivo. “Ninguém reclamava ou elogiava. Gugu gosta da briga por audiência e nem para isso ele era cobrado”, conta um amigo dele.

Para Sergio D’Antino, advogado que acompanha o fechamento da maioria dos contratos dos artistas de tevê, o assédio da Record a Gugu deu início à briga que tomou conta dos bastidores das emissoras. “Quando se mexe na sua casa, a defesa é você ir para cima de quem o atacou”, diz ele.

Já Quintela, um especialista na gestão de carreiras de comunicadores, defende a tese de que Silvio Santos se enche de coragem também cada vez que percebe mudanças na grade de programação da concorrência. “É como se ele fosse chamado para o jogo.” Com ele em campo, o show é garantido. Segundo Alberto Luchetti, ex-diretor de núcleo da Globo, a jogada de Silvio Santos é desestabilizar o adversário.

Na semana passada, os apresentadores Celso Freitas e Ana Hickmann, da Record, foram apontados como novos alvos do dono do SBT. Resultado: os dois tiveram seus contratos renovados antecipadamente e Hickmann herdou o posto de Eliana no “Tudo é Possível”. “Se não conseguir contratar, o Silvio pelo menos inflaciona a concorrente”, diz Luchetti, fundador da All TV, primeira emissora a transmitir uma programação 24 horas via internet. Silvio tentou, ainda, trazer junto com Eliana o diretor do programa dela, Carlos César Filho, que preferiu permanecer na Record após ter o salário de R$ 16 mil reajustado para R$ 60 mil.

A Rede TV! também tratou de segurar uma de suas joias: estendeu o acordo com o “Pânico na TV”, que manteve conversas com Record e SBT, até 2013 em troca de cerca de R$ 2 milhões mensais para a turma de humoristas. “Essa guerra agita o mercado e os artistas ganham dinheiro”, completa Luchetti.

Não só eles. Jornalistas ganharam ares de celebridades depois que a Record começou a assediar profissionais da Globo. Para levar ao ar o “Esporte Fantástico”, que estreia no primeiro domingo de julho, a emissora do bispo tirou Mylena Ciribelli da concorrente por R$ 80 mil mensais – ela recebia cerca de R$ 30 mil na Globo, onde trabalhou por 23 anos.

A Record levou ainda outros 11 profissionais. Tentou, sem sucesso, Cléber Machado, Tino Marcos e Glenda Kozlowski. No total, 80 pessoas formam o núcleo de esporte que a emissora formou para, principalmente, cobrir a Olimpíada de Inverno, no ano que vem, o Pan-Americano, em 2011, e a Olimpíada, em 2012, em Londres.

Todas essas competições são exclusividade da Record. Ana Paula Padrão, que estreia como apresentadora do “Jornal da Record” na segunda-feira 29, é cotada para assumir a bancada olímpica do esporte. Ela fechou com a emissora por quase metade do salário de R$ 680 mil que ela recebia no SBT até o mês passado, quando terminou seu contrato.

De acordo com um alto executivo da Globo, a fase mais crítica de assédio da Record ocorreu no início do ano passado. Hoje, ele diz, muitas pessoas estão pedindo para retornar. “Vários artistas seduzidos por salários mais altos trocaram de canal e tiveram suas carreiras destruídas”, pondera Marcelo de Carvalho, vicepresidente da Rede TV!. “Eles precisam pensar em um plano de carreira. E isso nós oferecemos aqui.” Na Globo, a política é clara: se alguém romper um contrato para ir para a concorrência, entra na geladeira e dificilmente volta.

Gugu decidiu romper com Silvio com contrato em vigência. Pouco antes de assinar com a Record, a emissora se dispôs a pagar a multa de R$ 15 milhões a que o dono do SBT teria direito, caso Gugu não cumprisse o acordo com ele. Mas Gugu surpreendeu. Disse a ele e a todos os presentes que, por gratidão e lealdade a Silvio Santos, iria cumprir o compromisso firmado com ele até o ano que vem. Espera, assim, sair pela porta da frente do SBT, para, quem sabe, poder entrar por ela novamente. Um sinal de paz no meio da guerra pelas estrelas da tevê.