O ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo brasileiro, Roberto Mangabeira Unger, afirmou que o Brasil precisa “estreitar” suas relações com os Estados Unidos para tornar o continente um “espaço de experimentalismo democrático”.

“O que eu proponho é uma reorientação até radical na nossa relação com os Estados Unidos, e ela exige o casamento da audácia com a imaginação”, declarou o ministro-chefe, ex-professor do presidente norte-americano, Barack Obama, em entrevista.

“Nós pouca relação temos [com os EUA]. Temos uma relação cordial, mas muito estreita, muito tênue. Basicamente só sobre ações comerciais”, ressaltou Mangabeira. Os Estados Unidos são o segundo parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China.

Desde que assumiu a presidência, Obama tem buscado manter boas relações com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na semana passada, o mandatário norte-americano citou Lula como um exemplo para outros líderes da região.

Nessa perspectiva, Mangabeira afirmou que a aproximação entre Lula e Obama é proveitosa, mas considera errado entendê-la como uma relação pessoal, quando na verdade se trata da estratégia de aproximação entre os dois países. “Eu julgo que nós devemos tomar a iniciativa e propor aos Estados Unidos um conjunto de experimentos binacionais”, opinou o ministro-chefe.

O ex-professor de Obama na universidade de Harvard foi convidado no início do ano a ir para Washington para reuniões com membros do então recém-formado gabinete norte-americano.

Mangabeira explicou que os Estados Unidos buscam uma retomada “do New Deal [plano de recuperação econômica adotado por Washington após a crise de 1929], de Franklin Roosevelt, e ampliação de oportunidades”.

Enquanto isso, destaca o ministro-chefe, o Brasil está “em uma busca paralela”, já que a “grande tarefa” do país após o governo Lula será “construir um modelo de desenvolvimento baseado na ampliação de oportunidades”. Para Mangabeira, trata-se de um modelo de “renovações institucionais, inclusive inovações na maneira de organizar a economia de mercado”.

“O Brasil é o país do mundo mais parecido com os Estados Unidos, embora essa semelhança não seja reconhecida nem lá nem cá”, afirmou o ministro-chefe, apontando como similaridades o fato de os dois países serem “grandes desiguais e federativos”.

Durante a entrevista exclusiva, concedida a bordo de um avião da presidência brasileira que viajava de Palmas a Brasília, Mangabeira defendeu um modelo de desenvolvimento economicamente sustentável e socialmente inclusivo como meio de garantir a soberania da Amazônia.

O membro do governo Lula também criticou organizações civis que buscam tornar a Amazônia um espaço para a contemplação dos estrangeiros. Mangabeira considera que Brasil e Estados Unidos podem trabalhar juntos em favor da floresta amazônica, por meio de assinatura de acordos de créditos de carbono.

Essa possibilidade ganhou força, segundo Mangabeira, desde a posse de Obama, já que a administração de George W. Bush era indiferente aos temas de meio ambiente. Com os democratas no poder, os Brasil poderia vender créditos de carbono aos Estados Unidos, garantiu o ministro-chefe.
ANSA