Josué Maranhão

“Se murar, vira presídio; se gradear, vira zoológico; se colocar uma lona, vira um circo; se colocar lâmpadas vermelhas, vira um puteiro; se der descarga, não sobra ninguém”.

No mundo livre (ainda) da internet, cabe tudo. Inclusive o texto transcrito.

As frases ilustram um vídeo que circula na internet, com uma bela fotografia do Congresso brasileiro. Lá estão bem visíveis o “pires” e a “xícara” que, segundo dizem, teria sido a forma simbólica que Oscar Niemeyer usou, quando projetou Brasília. Representariam uma suposta maturidade e serenidade do Senado Federal e a efervescência e agitação da Câmara dos Deputados.

A comparação do Congresso Nacional com um presídio, um zoológico, um circo, um prostíbulo, ou dejetos levados em uma descarga, poderia, à primeira vista, ser entendida como um desrespeito a um dos poderes da República.

No entanto, é muito mais uma amostra da indignação, do desencanto e da revolta do povo com o Congresso. A evidência da desmoralização máxima, é a forma como o povo conceitua o parlamento brasileiro. O descrédito absoluto leva a uma zona cinzenta e perigosa quanto à manutenção e o respeito ao regime democrático.

Não é incomum, notadamente nas camadas de nível de escolaridade mais baixo, comentários pregando o fechamento do Congresso. Desconhecendo os princípios teóricos que evidenciam a importância e a necessidade de um Poder Legislativo, no Brasil, parcelas da população, além de entenderem que é um órgão desnecessário e altamente dispendioso, ante a sua ineficiência, o desprestígio atinge o ápice quando diariamente a mídia divulga mais escândalos, mais corrupção. São atos que revelam uma completa e absoluta promiscuidade. A visão mostra que, no parlamento, mais do que em outros poderes (a avaliar pelo que é divulgado) ninguém diferencia o que é dinheiro público e o que é dinheiro privado.

A indignação do povo e o desprestígio do Congresso pode ser o início de um movimento, que, a história mostra, não é incomum mundo afora. Surge a pregação em favor da adoção dos chamados regimes fortes. Imaginam os mais crédulos que nas ditaduras não existe erros, não há corrupção, não se toca no dinheiro público. Pura ilusão.

O autoritarismo, o cerceamento das liberdades, com freqüência, propiciam o surgimento dos desmandos, inclusive corrupção desenfreada. É uma decorrência da ruptura da democracia, com a supressão de um dos seus pilares, exatamente o poder legislativo. Pelo menos em tese é lá que se escuta a voz do povo, através dos seus representantes.

O risco aumenta, à medida em que se divulga a existência de atos secretos, esbanjando não somente recursos públicos, mas propiciando manobras, falcatruas, nepotismo e demais absurdos denunciados.

Em meio a toda a celeuma, destaca-se, em posição ímpar, o presidente do Senado Federal.

Dia-a-dia surgem novas denúncias, outros escândalos, protagonizados por Zé Sarney, seus familiares e apaniguados.

O “coroné” maranhense não se preocupa em desmentir e comprovar uma suposta inverdade do que se diz a respeito do seu condenável comportamento. Parte para a surrada alegação de atribuir à mídia a culpa pelos seus erros e crimes.

Além de haver usufruído das benesses, com a sua família, tem o desplante de alegar que foi eleito para conduzir politicamente o Senado e não para cuidar de lixeiras e de cozinha. Evidentemente, se não quer cuidar de lixeira e cozinha, isto decorre do fato de que é lá que estão as provas dos desmandos e falcatruas.

O mais ridículo é que Zé Sarney procura se encastelar, entronizado na condição de homem diferenciado dos demais, como proclamou o presidente da República.

De fato, não se nega razão ao presidente Lula. O passado de Zé Sarney o diferencia da nação, do povo que trabalha, paga impostos e vive honestamente, jamais locupletando-se da coisa pública. Afinal, ele tem mais de meio século de atividade pública absolutamente improfícua, no que diz respeito aos interesses do país, da nação e do Estado brasileiro. Profícua, todavia, foi sua vivência política, quando se trata de adotar procedimentos irregulares e ilegais, notadamente em proveito próprio e de sua família.

O mais deprimente é imaginar que a apuração dos crimes e desmandos, certamente, jamais ocorrerá. As denúncias dizem que pelo menos um terço dos senadores tem o “rabo preso”. Também usufruíram de benefícios e vantagens irregulares e ilegais, notadamente através dos famigerados atos secretos.

Disso é prova o fato alardeado, indicando que antigos servidores do Senado, envolvidos nas falcatruas, estariam chantageando os senadores participantes das bandalheiras. Prevendo-se que, com certeza, tudo vai terminar, novamente, em pizza, chega-se à conclusão de que há uma completa desmoralização do Congresso.