Tasso Franco

O livro “A Invenção da Baianidade” da jornalista Agnes Mariano, editado pela AnnaBlume, SP, é um desses primores que, eventualmente, acontece na Bahia. Agnes trata com base numa ampla pesquisa sobre um tema precioso e de abordagem geral, o jeito de ser do baiano, visto muitas vezes de maneira exagerada, folclória e com feitos que não conduzem com a realidade presente, entre eles, o dizer geral de que “baiano burro nasce morto”, que Ruy Barbosa foi a Inglaterra ensinar inglês, e que Cachoeira é cidade heróica porque teria iniciado às lutas pela Independência da Bahia, em 1823.

Assim como, a freira Joana Angélica, considerada mártir da Independência da Bahia, não teve sua morte ligada direta ás lutas. Foi uma situação casual.

A jornalista analisou a baianidade na ótica da música popular brasileira em dois ciclos distintos, entre 1919/1964 (Ary Barroso, Dorival Caimmy, Gordorinha, Carlos Diniz, Silvio Caldas,etc) e entre 1965/2000 (Caetano Veloso, André Macedo, Gil, Moraes Moreira, Béu Machado, Alaim Tavares, Gilson Babilônia, etc) e chega a conclusão de que há uma diferença de abordagens entre os dois períodos, num contra-ponto entre o dengo x a alegria, e também na essência da cultura local, mais recentemente, com predominância da matrilínea afro exaltando a ascensão social.

Mas, no geral, no âmago da baianidade destacada com grande ênfase nos dois períodos pesquisados, a autor situa que o “dado especialmente rico foi confirmar a constante retomada de certas estruturas que sugerem uma auto-alimentação dentro do discurso da baianidade e, assim, confirmam a existência de um fluxo, um elo, um diálogo entre os compositores que tratam do tema”.

Ou seja, houve a manutenção da baianidade com outra roupagem destacando a ascensão social dos afros e uma visão mais politizada. Embora, ainda com exaltações exageradas à Bahia, uma espécie de mãe da cultura e do saber brasis.

Assim, o que Caimmy dizia em 1939, na canção “A preta do acarajé”, com seus lamentos mercando o produto em rua deserta usando uma camela e valorizando o trabalho das quituteiras negras baianas, de forma singela, sem conotação política “Ô acarajé ecó olalai ô ô/ Vem benzer ê ê, tá quentinho/ Todo mundo gosta do acarajé/ Mas o trabalho que dá pra fazer é que é/ Todo mundo gosta de abará/ Mas ninguém qué sabê o trabalho que dá; vê-se um diferencial em “Negrume da Noite”, de Paulinho do Reco, 1989, ao situar que “O negrume da noite/ Reluziu o dia/ O perfil azeviche/ Que a negritude criou; Constitui um universo de beleza/ Explorado pela raça negra/ Por isso o negro lutou/ E acabou invejado/ E se consagrou.

O tema é complexo e não se esgotaria levando-se em consideração somente a música, embora, essa manifestação da cultura popular baiana seja a mais difundida no país, à frente da literatura, do teatro, do cinema, por sua força junto a diferentes camadas da sociedade, indo da elite aos moradores das baixadas sempre com poderosa presença na midia, desde Ary Barroso, “O Taboleiro da Baiana”, 1936, gravado por Carmen Miranda; a “Tem um Pé no Pelô”, de Moraes Moreira, 1993, entre centenas de outras canções.

A autora exorta esta complexidade acompanhando o crescimento de Salvador e suas transformações sociais. Evidente que a cidade não é a mesma da época de Barroso e Caimmy; dos ícones Castro Alves e Ruy Barbosa ainda hoje lembrados como exemplos de baianidade; nem do período em que Gil, Caetano e Moraes Moreira dominaram a cena musicial e lençaram expressões que reforçaram essa baianidade. Não a nagô, porque tem esterótipos nojentos, dito, por exemplo, que nativo baiano é bom de cama, mas, algo que reforça a crença nos santos, no céu e no mar, planos sagrados dos baianos.

É de Gil, cantado por Gal Costa, 1965, em “Eu Vim da Bahia” essa crença: Eu vim, eu vim da Bahia cantar/ Eu vim da Bahia contar/ Tanta coisa bonita que tem/ Na Bahia que é meu lugar/ Tem meu chão/ Tem meu céu/ Tem meu mar/ A Bahia que vive pra dizer/ Como é que faz pra viver/ Onde a gente não tem pra comer/ Mas de fome não morre/ Porque a Bahia tem mãe Yemanjá/ Do outro lado o Senhor do Bonfim/ Que ajuda o baiano a viver.

Agnes analisa essa contextualização histórica, com ritmos diferenciados da cidade do Salvador a partir da primeira metade do século XX, o enigma baiano, os cronistas de época, a literatura de Jorge Amado e as mudanças que aconteceram mais recentemente com a escolarização de uma imensa massa pobre urbana que não tinha informações adequadas e se organizou em associações, entidades carnavalescas e de cultura, e estabelece novos padrões para a baianidade.

No campo das descrições idiossincráticas, de habilidades e comportamentos individuais as quais se atribuem raízes culturais, a autora pincela a “personalidade baiana” quando se define “um certo sabor, jeito ou estado de espírito à cidade e ao Estado” onde coqueiros, mar, mulheres, culinária, coragem, virilidade, provincianismo, beleza e outros atributos aparecem como referência a “esse modo baiano de ser”. Livro extraordinário para pesquisa, estudos complementares e conhecer o tema com profundiade.

Nesta semana, 2 de Julho, teremos uma forte expressão dessa baianidade nas ruas de Salvador, os feitos da Independência da Bahia, em 1823, história que precisa de um estudo sério e desapaixonado, para enquadrar a baianidade e o heroismo em seus devidos lugares, sem os excessos atuais. Inventaram até uma heroina que escurraça tropas portuguesas em Itaparica usando folhas de cansanção.