IstoÉ

Na segunda quinzena de junho, a cúpula do Partido Verde realizou uma reunião no Rio de Janeiro para discutir a estratégia eleitoral para 2010.

O encontro teve como cenário a casa do vice-presidente do PV, Alfredo Sirkis, no bairro de Laranjeiras, e estavam presentes, além do anfitrião, José Luiz Penna, presidente nacional do partido, Sérgio Xavier, de Pernambuco, e Marco Antônio Mroz, diretor da Fundação Verde Herbert Daniel.

Todos integrantes da Executiva Nacional. “O PV deve ter uma candidatura presidencial em 2010 para se afirmar no quadro político nacional e reforçar o ideário verde internacional”, sugeriu Sirkis. “Só um nome pode personificar a nossa bandeira: é o de Marina Silva”, disse Penna, que recebeu a imediata concordância dos demais.

Nasceu ali a surpreendente candidatura da ex-ministra do Meio Ambiente à Presidência da República. No dia 8 de julho, tanto a tese de Sirkis quanto o nome da candidata foram aprovados em reunião oficial da Executiva e, três semanas depois, houve o convite formal.

A decisão do PV provoca uma reviravolta na sucessão de 2010. Tudo caminhava para a repetição de um cenário que se desenha desde 1994, quando Fernando Henrique Cardoso chegou à Presidência. O sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pertenceria fatalmente ao PSDB ou ao PT, os dois partidos hegemônicos da política nacional nos últimos 15 anos.

A disputa tinha tudo para ganhar caráter plebiscitário cujo desfecho poderia até se dar no primeiro turno das eleições, no dia 3 de outubro. De um lado, a candidata do governo, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. De outro, o governador de São Paulo, José Serra, ou o de Minas Gerais, Aécio Neves, ambos aspirantes ao Planalto pelo PSDB. Mas a provável filiação ao PV da ex-seringueira e senadora Marina Silva para entrar no jogo da sucessão de Lula entusiasmou parte da opinião pública que clama por mudança na política fora do discurso tucanopetista.

Ela trouxe o imponderável para uma eleição que tem como ingrediente fundamental o fato de, pela primeira vez, em 21 anos, Lula – e sua antítese, o anti-Lula – estar fora da disputa.

Levantamento feito pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), por encomenda do PV, mostra que a candidatura de Marina não só é viável como pode ameaçar a polarização PT-PSDB. Em dois dos quatro cenários, a ex-ministra aparece na frente de Dilma.

“A pesquisa é surpreendente”, disse à ISTOÉ o coordenador da consulta, o cientista político Antônio Lavareda. Sem a presença da ex-senadora Heloísa Helena (PSOL) e do deputado Ciro Gomes (PSB-CE) na disputa, Marina derrotaria, com 24% dos votos, a ministra Dilma, que ficaria com 16%. José Serra, neste caso, apareceria com 37% dos votos.

Com Serra e Ciro fora da disputa, Marina aparece na casa dos 24%, mas em empate técnico com Aécio, pois a pesquisa tem margem de erro de 2,2 pontos percentuais. Dilma ficaria com 19%. Os números revelaram ainda forte presença de Marina nas classes A e B. “Não há dúvida que a candidatura é competitiva e viável”, diz Lavareda.

“A pesquisa mostra de forma inequívoca que a senadora transcende a classe média, o voto de protesto e entra bem no Nordeste”, acrescenta Sirkis, ressalvando que o alcance do levantamento, por ter sido feito por telefone, e ouvido um contingente de duas mil pessoas, não é o mesmo do de uma pesquisa tradicional. “Estamos apenas numa fase primitiva da campanha”, lembra ele.

“Marina pode mudar a eleição. É uma novidade, tem boa imagem e abraça a causa do meio ambiente, que hoje é prioridade no mundo”, diz Carlos Augusto Montenegro, do Ibope. “Ela muda o cenário por ser claramente uma figura com imagem positiva, biografia respeitável e com entrada em certos setores de esquerda”, faz coro o cientista político Fábio Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Com a movimentação política de Marina, espera-se que os partidos defendam seus projetos no primeiro turno e, valorizados pelos resultados das urnas, montem as composições do segundo turno. É assim que a vontade do eleitor é transformada em decisão política. O fator Marina torna o horizonte eleitoral ainda mais nebuloso na medida em que tem potencial para esfacelar o PMDB, até então a noiva preferencial da sucessão.

“A Marina vai causar uma revolução na eleição”, endossa o experiente senador Pedro Simon (PMDB-RS), para quem o partido, com o surgimento de novas candidaturas, pode ficar mais refém de suas conveniências regionais, em detrimento de um projeto nacional.

O primeiro sinal de que a entrada da senadora no jogo sucessório embaralha as cartas para 2010 foi a realimentação, nos últimos dias, das ambições presidenciais de políticos até então intimidados diante de um cenário que parecia consolidado.

Mas há quem desconfie da força de Marina. “É uma candidatura muito setorizada. A sociedade necessita mais do que uma única bandeira”, critica o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), que travou vários embates com Marina.

Para o presidente do Instituto Vox Populi, o cientista político Marcos Coimbra, a candidatura dela à Presidência pode não ter o impacto que se imagina. “Marina não reúne atributos importantes para um candidato à Presidência, como densidade política, condições de governar e imagem de quem tenha uma pauta mais ampla de preocupações”, diz Coimbra.

“É uma candidata ligada a um tema só.” Coimbra lembra que Heloísa Helena, em um momento de maior “vulnerabilidade” para o partido de Lula, em 2006, teve 6,5 milhões de votos. “Dificilmente a Dilma perde um voto para Marina”, conclui Coimbra. A pesquisa, no entanto, mostra que Marina tira, sim, votos de Dilma, de Ciro e de Heloísa, principalmente no Nordeste e no Centro-Oeste. A candidatura do PV foi tema de várias reuniões no PT durante a semana.Uma delas com a presença do presidente Lula.

Na avaliação da cúpula do partido, Marina pode mesmo avançar sobre o eleitorado em potencial da ministra da Casa Civil. “Ela tem um perfil mais próximo do eleitor do PT”, admitiu o presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini. Para os petistas, outro ponto que também poderá prejudicar a eleição de Dilma ao Planalto é o fato de Marina ser ex-ministra de Lula, o que lhe dá munição para tecer críticas contra o governo.

O que mais pode ajudar Marina na corrida presidencial é sua biografia muito parecida com a do presidente Lula. Foi na zona rural do Acre, em um seringal chamado Bagaço, a 70 quilômetros de Rio Branco, que a senadora nasceu e morou até a adolescência. Filha de nordestinos retirantes, enfrentou as agruras da vida desde muito cedo.

Sua rotina diária era árdua. Acordava às quatro horas da manhã, aprontava farofa com café para os irmãos no fogão a lenha. E percorria sete quilômetros até o seringal. O mesmo percurso fazia de volta ao anoitecer. Dos 11 irmãos, dois morreram de sarampo e um de tétano. Ainda criança, aos 6 anos, teve seu sangue contaminado por mercúrio e foi desenganada pelos médicos por quatro vezes.

Adolescente, ainda contraiu hepatite, e foi tratada com medicamento para malária. Aos 13 anos, sentiu uma grande vontade de ser freira. Confessou o desejo ao pai, que foi tachativo: “Freira não pode ser analfabeta.”

Foi movida por essa vontade que, aos 16 anos, Marina ganhou as ruas. Mudou-se para a capital do Estado, alfabetizou-se pelo antigo Mobral e conseguiu seu primeiro emprego como empregada doméstica. Após fazer o supletivo, em 1984, formou-se em história pela Universidade Federal do Acre.

Em 2003, com a chegada de Lula ao poder, Marina assumiu o Ministério do Meio Ambiente, onde permaneceu até maio de 2008, quando pediu demissão no rastro de uma série de quedas de braço com Dilma Rousseff. O principal deles, devido ao atraso na concessão de licenças ambientais pelo Ibama, que foi apresentado como o grande vilão para o não andamento das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Aos 42 anos, a católica das Comunidades Eclesiais de Base que pregava a Teologia da Libertação se converteu à Igreja Evangélica.

O maior obstáculo para a voo solo de Marina ao Planalto reside no fato de o PV, dono de apenas 14 assentos na Câmara dos Deputados, ser um partido pequeno. A senadora, considera Lavareda, precisaria de mais tempo na tevê e teria que ter como opção uma “cesta” de pequenos partidos ou um “movimento na sociedade”.

Porque, se todos os pré-candidatos forem para a disputa em 2010, Marina largaria com 10% dos votos. Por isso, a senadora insiste na refundação do PV. Isso incluiria a participação do ex-ministro Gilberto Gil na chapa como candidato a vice. A formação de palanques estaduais é outra preocupação.

No Rio, por exemplo, o provável candidato a governador, Fernando Gabeira, ficaria com dois palanques, o do PSDB, de quem tem o apoio, e o dos verdes. “No primeiro turno, minha campanha vai ser para a Marina”, garante Gabeira.

Durante a semana, Marina dedicouse às conversas com aliados mais próximos, como o governador do Acre, Arnóbio Marques, e os irmãos Viana (o ex-governador Jorge e o senador Tião), seu suplente, Sibá Machado, e o prefeito da capital, Raimundo Angelim. A todos deixou a impressão de que vai mesmo topar o desafio. “Sinto um chamamento”, disse ela ao presidente da Helibrás, Jorge Viana.