Época

Um dos maiores desafios da pesquisa de drogas contra o câncer é tornar mais precisa a artilharia usada contra os tumores.

Em grande parte dos casos, a quimioterapia disponível hoje equivale a disparar uma bala de canhão para matar uma formiga. O tratamento ataca minúsculos tumores, mas deixa devastada uma grande quantidade de células saudáveis.

Por isso o paciente sente tantos efeitos colaterais. Está em curso, porém, uma mudança de rota que pode levar ao surgimento de remédios bem mais inteligentes.

Uma nova classe de drogas em desenvolvimento demonstra resultados promissores no combate de alguns tumores – especificamente naqueles casos de câncer hereditário causado por mutações nos genes BRCA1 e BRCA2. Cerca de 10% das pacientes que têm câncer de mama apresentam mutações nesses dois genes.

Por esse motivo, a doença afeta várias mulheres da mesma família. Muitas descobrem o câncer de mama na faixa dos 20 anos de idade. A bancária Fernanda Gusmão dos Santos, de 26, recebeu o diagnóstico de câncer de mama no ano passado. Passou por cirurgia, radioterapia e seis ciclos de quimioterapia.

A cada sessão sentia muitos enjoos e cansaço. “Era como um atropelamento. Posso dizer que sofri seis atropelamentos com intervalos de 21 dias”, diz. A mãe de Fernanda, Zely, teve câncer de mama aos 39 anos e de ovário aos 51. Diante do histórico familiar, as duas outras irmãs de Fernanda são acompanhadas de perto. Rosana, de 22, fez uma biópsia cujo resultado foi negativo para câncer.

A cada três meses, faz uma bateria de exames que incluem mamografia e ressonância magnética. A irmã mais velha, Cristina, de 27 anos, fez uma biópsia que não revelou nenhum tumor. “Se um dia eu tiver uma filha, vou exigir que ela comece a fazer o acompanhamento aos 18 anos”, diz Fernanda.

A família ainda não recebeu o resultado dos testes que comprovam alterações nos genes BRCA1 e BRCA2, mas é provável que essa seja a causa do surgimento de tantos tumores em idade precoce. Alterações nos genes BRCA1 e BRCA2 também provocam a transmissão hereditária de outros tipos de câncer – como o de ovário e o de próstata.

A nova categoria de remédios é chamada de inibidores da Parp, uma enzima que ajuda a célula a reparar seu DNA quando ele sofre uma alteração. A enzima Parp “conserta” o DNA das células malignas para permitir que elas continuem se multiplicando.

Ao inibir essa enzima, as novas drogas destroem as células malignas. E o melhor: preservando as células saudáveis. Uma das novas drogas é a olaparibe, do laboratório AstraZeneca. Um estudo de fase I (fase inicial, para avaliar se a droga é tóxica, e não se ela é eficaz) foi realizado na Inglaterra com 60 pacientes.

Vinte e dois eram portadores de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2. O resultado foi surpreendente: em 12 deles, o tumor parou de crescer ou diminuiu de tamanho. O remédio não fez nenhum efeito em pacientes que não tinham as mutações.

O resultado foi tão promissor que o periódico científico The New England Journal of Medicine tomou uma decisão incomum: publicou dados do estudo, embora não costume divulgar pesquisas tão preliminares. Segundo a publicação, os inibidores da Parp representam “uma nova direção no desenvolvimento de drogas contra o câncer”.

A ideia inovadora por trás desse remédio foi a aposta num fenômeno biológico chamado de “letalidade sintética”. Processos biológicos necessários para a sobrevivência celular têm, na maioria das vezes, uma redundância.

Ou seja: quando uma proteína necessária para a sobrevivência da célula deixa de funcionar, existe outra capaz de assumir o serviço. “O termo letalidade sintética foi usado para definir a morte celular quando essas duas vias redundantes deixam de funcionar”, diz Luiz Fernando Lima Reis, diretor de Pesquisa do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. É como se o remédio, ao atingir as células malignas, chutasse a única perna estável de uma mesa que já estava bamba.

“Estão começando a surgir as primeiras drogas realmente criadas de acordo com o perfil genético de cada tumor”, afirma o oncologista André Murad, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Segundo ele, nem os remédios mais modernos disponíveis atualmente, chamados de terapia-alvo, são tão específicos como essa nova categoria. Outro inibidor da Parp está sendo desenvolvido pela empresa Sanofi-Aventis. A droga, identificada com a sigla BSI-201, está sendo testada num grupo de 420 pacientes de câncer de mama metastático (ou seja, que se espalhou).

É um estudo de fase III, mais adiantado, destinado a avaliar a eficácia da droga com vistas à comercialização. Ainda não se sabe se haverá estudos clínicos das novas drogas no Brasil, nem quando os remédios chegarão ao mercado. Uma coisa é certa: eles serão caríssimos. Drogas tão específicas podem aumentar as chances de sucesso do tratamento. Mas, antes de tudo, elas precisam provar que são seguras e eficazes.