Carta Capital

O rapaz engravatado, já nem tão rapaz assim, que abastece os senhores senadores a cada cinco minutos com providenciais copos orvalhados para refrescar as gargantas de suas excelências depois de tanto discursório na tribuna, é proibido de falar com repórteres. Mas, no fundo do plenário, ele cochicha:

– Uma das cenas mais impressionantes que já vi aqui foi uma vez que o finado senador Antonio Carlos Magalhães bateu a mão num copo e a água voou. O Marco Maciel, que estava do lado, deu três pulinhos para trás e não caiu nem uma gotinha no paletó dele.

É realmente de cair o queixo a habilidade de malabarista do senador do DEM em se manter limpo. Em plena crise no Senado, o magérrimo Maciel não viu resvalar sobre si nada que pudesse manchar a reputação bem cultivada de conservador honesto.

Enquanto seus pares à destra e à sinistra eram enredados nos escândalos com uma viagenzinha ao exterior aqui, um neto empregado acolá, Maciel saltitava com seus passos lépidos pelos corredores da Casa. Imaculado.

Para fazer justiça ao pernambucano, é preciso dizer que sempre foi assim, desde que o ex-PFL ainda se chamava Arena. Poucos políticos podem se gabar de terem passado pela história contemporânea do Brasil, sempre de mãos dadas com o poder, menos agora, e permanecer com elas aparentemente como entrou, vazias. O maranhense José Sarney, de trajetória semelhante, que o diga. “Ninguém encontrará uma só fazenda no nome de Maciel. Nem uma só empresa onde apareça como sócio”, desafia um conterrâneo seu.

Com 50 anos de vida pública, iniciada no movimento estudantil, o único patrimônio visível do atual senador, ex-governador biônico, deputado federal e vice-presidente da República é um apartamento num edifício antigo em frente ao mar de Boa Viagem, no Recife. Espécie de monge do Parlamento, o catolicíssimo senador (há quem diga que simpatizante do Opus Dei) costuma falar que aprendeu com o pai, José do Rego Maciel, duas vezes deputado federal e prefeito do Recife, a exercer a política como “ação missionária”.

Também pernambucano, o senador Cristovam Buarque, quatro anos mais novo, põe a mão no fogo pelo contemporâneo de movimento estudantil: “Se você der uma mala cheia de dinheiro para Marco Antonio ele não pega”. Ainda hoje Cristovam o chama pelos prenomes, embora no Senado ele seja chamado de Maciel. Em campanha, usa o Marco como adjetivo: marco de honestidade, marco democrático, “Marco de Pernambuco, seriedade, compromisso e lealdade”, como diz seu slogan de pré-campanha pela reeleição ao Senado.

Nos tempos de política estudantil, o jovem Marco Maciel surpreendeu Cristovam e os demais adversários de esquerda ao se eleger presidente da União dos Estudantes de Pernambuco, em 1962, dois anos apenas antes do golpe militar ao qual aderiria e durante o qual viria florescer como político profissional. “Naquela época, éramos obrigados a considerar Marco Maciel como inimigo. Com o tempo é que verificamos que o mundo não era dividido entre mocinhos e bandidos. E que tinha muito cabra safado na esquerda, também”, pondera o ex-deputado Maurílio Ferreira Lima.

Ao optar por ser visto como um conciliador, pouco afeito a polêmicas, Maciel se confunde muitas vezes com um político anódino, apelidado pelos jornalistas que cobrem o Senado de líder do MSL, o Movimento-dos-Sem-Lead, ou seja, o tipo de parlamentar que não rende notícia. De fato, enquanto o pau quebrava no Senado nos últimos meses, o pernambucano foi capaz de subir à tribuna para homenagear os 90 anos do Clube de Engenharia de seu estado, a nova encíclica papal Caritas in Veritate e os 40 anos dos Cursilhos da Cristandade em Brasília.

“Tertúlia bovina para boi dormitar”, diria o próprio Maciel em uma das raras anedotas atribuídas à sua pessoa, ao comentar a possibilidade de se instalar o Parlamentarismo no Brasil, em 1997. Escorregadio, o senador contra-argumenta que, se não explicitou sua posição em público, o fez no aconchego das reuniões de bancada. “O líder falou por mim”, afirmou o senador, e mais não disse sobre o imbróglio Sarney. O senador Demóstenes Torres, do DEM, confirmou que o colega votou de acordo com as decisões do partido, inclusive pelo afastamento do presidente da Casa.

Para a opinião pública, pode ter ficado que foi omisso. “Maciel não entra em dividida, é uma característica dele. Mas tem havido essa cobrança para cima dele, sim”, analisa um político do estado. O DEM pernambucano, preocupado, colocou a reeleição do senador como prioridade, destacando justamente a seriedade e a impermeabilidade de Maciel aos escândalos. “O Senado pega fogo, a lama é atirada para todo lado e nada respinga nele”, elogiou Benone Leão, democrata de Pernambuco, durante uma caravana da pré-campanha do senador sertão adentro.

Maciel costuma justificar seu comportamento reto com a frase “O estilo é o próprio homem”, do naturalista Buffon. Culto, membro da Academia Brasileira de Letras, é uma espécie de enciclopédia ambulante do Senado, que socorre os colegas com dúvidas. Mas é, ele mesmo reconhece, um homem ruim de discurso, sem timing, que não consegue, no palanque, expor as ideias tão concisamente como no papel. Em 1994, se tornou candidato a vice de Fernando Henrique Cardoso mais por ser virtuoso do que bom orador. Perfeito para substituir Guilherme Palmeira, pego no escândalo das emendas ao Orçamento.

Ao ser escolhido, sapecou: “Eu vim para servir, não para ser vice”. E foi assim durante os oito anos em que permaneceu no Jaburu. Chegou a ser considerado como a personificação do vice-presidente ideal, aquele que podia ser mantido eternamente, só precisava mudar o titular. Já para o Senado, acredita-se que será difícil sua reeleição em 2010.

Em Pernambuco, o governador eleito normalmente puxa os dois senadores da mesma chapa. Sendo Eduardo Campos, do PSB, franco favorito para a reeleição, levaria junto, para o Senado, Armando Monteiro Neto, do PTB, e João Paulo, ex-prefeito do Recife, do PT. Marco Maciel enfrentará o desafio de provar se ter apenas honestidade como patrimônio político funciona na hora de ganhar eleição.