IstoÉ

Quando arquitetaram o roubo da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), os fraudadores jamais poderiam imaginar que estavam detonando uma bomba política.

A primeira consequência foi a desmoralização de um dos principais alicerces do projeto educacional do governo federal, causando um prejuízo de cerca de R$ 35 milhões, que provocou críticas da oposição.

A segunda reflete a indignação dos 4,1 milhões de inscritos no exame: o surgimento da Nova Organização Voluntária Estudantil (Nove), um movimento autointitulado apartidário, pacifista e ativo que, a despeito de seus adjetivos, ganha importância por ser um contraponto às tradicionais União Nacional dos Estudantes (UNE) e União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes).

O grupo escolheu os locais históricos do movimento estudantil brasileiro para realizar as suas primeiras passeatas no Rio de Janeiro – um deles o saguão do prédio do Ministério da Educação, onde, na década de 1960, estudantes entravam em embate com a polícia.

Marcharam também pela Cinelândia e avenida Rio Branco, cenário da passeata dos 100 mil, ocorrida em 1968. A Nove critica a Ubes e a UNE pela ausência nas escolas e o silêncio perante o recente caso do Enem.

O novo movimento tenta mostrar o quanto as tradicionais organizações estudantis se afastaram de seus ideais em defesa da educação, seduzidas pelas benesses do governo Lula. Começou com 12 estudantes de classe média, usou as redes sociais para a mobilização e, na segunda-feira 5, levou 200 estudantes vestidos de branco, com narizes de palhaço e faixas e cartazes para o centro do Rio.

“Não temos a intenção de substituir a UNE. Não somos contra a Ubes. Mas não podemos negar que os movimentos tradicionais vivem distantes da classe estudantil”, explicou Carolina de Lamare, uma das fundadoras da Nove, que estuda no Colégio Santo Inácio, um dos mais caros do Rio.

Pega de surpresa pelo sucesso do novo grupo estudantil, a UNE já acenou com uma tentativa de composição. O presidente da entidade, Augusto Chagas, convidou a Nove para ir a Brasília entregar um documento reivindicando mais investimentos para a educação.

A “galera” da Nove declinou do convite com uma alegação simples: tinha que estudar para o vestibular. O presidente da Ubes, Ismael Cardoso, rebateu as críticas feitas pela Nove. Ele ressaltou que a entidade já havia criticado a pressa do MEC em implementar o novo modelo do Enem que unifica os vestibulares e realizou manifestações contra a violação da prova.

A Ubes organizará um ato na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no dia 15 de outubro e promete pressionar instituições como USP e Unicamp a utilizar o Enem no processo de seleção mesmo com o adiamento da prova.

“Um movimento que surge para responder a uma questão imediata não tem autoridade para criticar a Ubes, com 60 anos de história. Estão usando uma revolta justa dos estudantes em relação ao Enem para criticar a Ubes e a UNE”, diz.

Cardoso contesta ainda a declaração dos integrantes da Nove de que o movimento é apartidário. Segundo o presidente da Ubes, o grupo conta com pessoas ligadas à Assembleia Nacional de Estudantes Livre (Anel), criada em junho deste ano por militantes do PSTU para se contrapor à UNE. “Nada contra, mas o que eles não podem dizer é que o movimento é apartidário.”

A divisão do movimento estudantil é apenas uma parte do prejuízo político do governo com a fraude. O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), ao mesmo tempo que se ofereceu para ajudar, aproveitou para emplacar um termo com grande conotação eleitoral ao definir a crise: “A fraude do Enem complicou a situação do sistema universitário que confiou no seu funcionamento. Houve uma espécie de apagão.”

O ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou que vai dar a volta por cima. “A proposta de acabar com esta chaga que é o vestibular e redirecionar o ensino médio não pode sucumbir pela ação de delinquentes”, disse.

Por enquanto, os estudantes serão obrigados a enfrentar o transtorno causado pela mudança de datas. O teste, agendado para 3 e 4 de outubro, foi cancelado na madrugada de 1º de outubro depois de o jornal “O Estado de S. Paulo” denunciar o roubo e divulgar o conteúdo da prova.

Devido à logística de impressão e distribuição, o novo exame foi marcado para 5 e 6 de dezembro, dois meses após a data original. “Estou chateada. Além do esforço feito, deixarei de prestar a prova da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)”, disse Isabela Piccirillo, 18 anos, moradora de Ribeirão Preto e vestibulanda de engenharia de produção.

Para a Polícia Federal, o caso da fraude já está esclarecido e, agora, os cinco envolvidos no roubo e venda das questões do exame – Felipe Pradella, Gregory Camillo de Oliveira Craid, Luciano Rodrigues, Felipe Ribeiro e Marcelo Sena – devem aguardar a tramitação do processo com os inquéritos encaminhados para o Ministério Público.

Rodrigues e Craid foram indiciados por quebra de sigilo funcional. Pradella, Ribeiro e Sena, além desses crimes, vão responder por peculato. Pradella, que, de acordo com a PF, é considerado o mentor do crime, ainda responderá pela suspeita de ter ameaçado de morte a jornalista Renata Cafardo, do jornal “O Estado de S. Paulo”. Após a fraude, o contrato com o consórcio Connasel, responsável pela aplicação do Enem, foi rompido, apesar de a empresa ter negado falhas na segurança.

O MEC agora negocia a contratação do Cespe e da Cesgranrio para realizar o Enem e irá pedir na Justiça o ressarcimento do prejuízo milionário. Mas as perdas políticas podem ser ainda maiores.