CartaCapital

Sentado na primeira fila na cerimônia em Copenhague, na Dinamarca, ao lado dos nervosíssimos Eduardo Paes, prefeito do Rio, do governador Sérgio Cabral e do presidente Lula, o ministro do Esporte, Orlando Silva, parecia paralisado em uma espécie de transe zen, ansioso de que o desfecho da tortura viesse logo.

“Eu tinha certeza que íamos ganhar. Até disse pro Cabral, que estava desesperado: ‘Esquece, compadre, essa nós ganhamos’. Mas a demora me deixou apreensivo. Para que aquele ritual todo? Pega o papel e abre, ué. Não, tem de botar o envelope numa bacia, levar a bacia até o presidente do comitê olímpico internacional…” O presidente do COI, Jacques Rogge, finalmente anuncia o nome do Rio de Janeiro como cidade-sede das Olimpíadas de 2016.

Lembranças de uma noite de festa. Depois, porém, dos abraços da vitória, começaram as divergências entre o presidente da Rio 2016, Carlos Arthur Nuzman, também presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), e o governo. A preocupação é que não se repitam os quase 800% de estouro do orçamento dos Jogos Pan-Americanos de 2007, organizados Nuzman, mas também que se aproveite o evento para mudar o perfil do esporte no País.

Lula quer medalhas. E já orientou seu ministro a organizar, em três semanas, uma reunião com os representantes do movimento olímpico em que vai exigir estratégias de médio e longo prazos para melhorar o desempenho dos atletas. O discurso do presidente é de que o Brasil deixe de ser Terceiro Mundo não só economicamente, mas em desempenho esportivo.

A ideia de estabelecer metas aparentemente não agrada a Nuzman. “Vou desautorizar qualquer um que falar sobre isso. No dia em que tivermos uma reunião com as federações, vamos falar sobre o assunto. Ninguém sabe de nada.

Vou estabelecer ainda como vamos trabalhar”, declarou o presidente do COB no sábado 3, o dia seguinte do anúncio da escolha, ainda em Copenhague. A CartaCapital, o ministro Silva admitiu haver pontos de vista diferentes entre o governo e o comitê olímpico.

“Existem posições que não necessariamente têm de ser as mesmas em termos de política esportiva. Mas essa ideia de ter um sistema de metas vai ser incorporada pelo movimento olímpico”, aposta o ministro.

“Em 2016 seremos a quinta economia do mundo. A proposta do governo é de que nos preparemos para estar entre os dez, esportivamente falando. Hoje não estamos nem entre os vinte. Apesar de esta ser uma contabilidade complexa, em que se valoriza a medalha de ouro, não o total de medalhas, sob nenhum critério que se utilize atualmente estaríamos entre os dez.”

Pode até ser que o PIB brasileiro cresça o suficiente para se tornar o quinto maior do mundo. Pergunta-se: o fato, somado à realização das Olimpíadas, será suficiente para mudar a paisagem do Rio? A cidade deixará de ser refém do tráfico e da violência? As favelas sumirão? Enfim, aquele clima de guerra civil desaparecerá como num passe de mágica?

Quanto ao desempenho esportivo, o ministro diz que o plano do governo é fixar metas capazes de possibilitar aos atletas brasileiros participar de um maior número de finais. “Só vamos ter um maior número de medalhas quando tivermos mais gente disputando finais”, diz.

Na China, no ano passado, o Brasil ficou em 23o lugar, com três ouros, quatro pratas e oito bronzes. Só para comparar: a França, 10ª em Pequim, conquistou sete ouros, 16 pratas e 17 bronzes. Será preciso, portanto, muito mais que ufanismo para alcançar a ambiciosa meta. Os jogos de Londres, em 2012, serão o maior teste antes das disputas no Rio.

De resto, a fase das comemorações e do oba-oba já passou. O momento é de tentar evitar os traumas do Pan-Americano, modesto em resultados práticos, colossal em prejuízos. Todo cuidado será pouco.

A Olimpíada de 2016 vai custar 28,8 bilhões de reais. Como de praxe, esse cálculo deverá se mostrar, em breve, conservador. O risco de desvio e corrupção nem chega a ser o mais preocupante. O que os jogos colocarão mesmo à prova é a capacidade de o País superar um de seus problemas crônicos: a dificuldade de planejar e gerir um projeto de longo prazo.

Cita-se novamente o exemplo do Pan: orçado inicialmente em 412 milhões de reais, saiu por 3,6 bilhões e só não foi um fiasco maior por conta da intervenção federal na reta final dos preparativos.

No Tribunal de Contas da União há mais de 30 processos com suspeitas de irregularidades na realização do evento de 2007, entre denúncias de superfaturamento na compra de materiais, no aluguel e na construção da Vila, além de mudanças nos contratos para incluir aditivos sem justificativa.

Em um dos processos, ainda sem julgamento definitivo, o chefe do comitê da Rio 2016, Ricardo Leyser Gonçalves, secretário nacional do Esporte, foi condenado a devolver mais de 16 milhões de reais aos cofres públicos por irregularidades na contratação de estruturas. Um assessor de Leyser e uma construtora também foram condenados.

Mesmo assim, tanto o prefeito do Rio quanto o ministro dos Esportes defenderam a atuação de Leyser. “É um senhor executivo, fez um belo trabalho, coordenou todo o Pan-Americano. Os problemas estão sendo explicados. Acho que a gente tem de ter muita calma antes de sair apontando o dedo”, afirma Eduardo Paes.

“O Leyser se dedicou ao limite. Além disso, tem contratos nestes processos que ele nem assinou”, afirma Orlando Silva, que atribui a interesses políticos a divulgação da condenação do subordinado em uma decisão ainda não definitiva. Seja como for, o nome de Leyser foi jogado às feras e aparece na internet como grande “vilão”, desde já, da futura olimpíada: “raposa do Pan” e “vampiro pan-americano” são alguns dos epítetos que o executivo recebeu na rede.

Os erros do Pan não se restringiram a superfaturamento e denúncias de fraude. Aos acertos a que o governo atribuiu a vitória na escolha do Rio para as Olimpíadas, assim como para a Copa do Mundo de 2014, se contrapõe o pequeno ou quase nulo legado de 2007 em termos de impulso no desempenho esportivo.

As melhoras estruturais prometidas para a cidade em transporte público não saíram do papel. Não à toa, paira igual suspeita de fracasso com o projeto de um corredor de ônibus rápido entre a Barra da Tijuca, onde ficará a Vila Olímpica, e a zona oeste do Rio, chegando ao aeroporto do Galeão.

Outra melhoria prometida para facilitar o fluxo de atletas e espectadores no sofrido trânsito carioca é a expansão do metrô da zona sul até a Barra. A zona portuária seria revitalizada mpletamente para receber transatlânticos, solução alternativa para resolver a carência de 20 mil leitos nos hotéis cariocas apontada pelo Comitê Olímpico Internacional.

Quanto ao bom uso do dinheiro, o governo admite que faltaram ao Pan três pontos fundamentais presentes no projeto de 2016: planejamento, entrosamento entre as três esferas do poder público (federal, estadual e municipal) e transparência nos gastos.

Quem perguntar a um integrante do governo Lula se é bom negócio sediar uma Olimpíada, vai ouvir a mesma resposta: se não fosse, não haveria tantas cidades na disputa.

O Ministério do Esporte se apega a um estudo da Fundação Instituto de Administração, de São Paulo, sobre o impacto socioeconômico dos jogos, em que se prevê um impacto no PIB de 22 bilhões de reais entre 2009 e 2016, com reflexo nos dez anos seguintes de mais 27 bilhões.

Fala-se ainda em aumento de empregos não só no Rio como em outras partes do País, sobretudo na área de construção civil. Sem falar no tal reflexo sobre a “autoestima” dos cariocas.

“A visão sobre as Olimpíadas deve ser positiva, sim. Elas são boas para um País”, analisa o professor de economia da Unicamp Marcelo Proni, um dos autores do texto “Leitura Econômica dos Jogos Olímpicos”, publicado no ano passado pelo Ipea. No estudo, os economistas apontam os ganhos em vários setores que as Olimpíadas representaram para as cidades-sede nos últimos anos que souberam acertar na organização. Barcelona (1992), na Espanha, e Sydney (2000), na Austrália, principalmente.

“São os maiores exemplos para o Brasil. Barcelona, pelas melhorias urbanas e por ter ajudado a impulsionar a economia do turismo. Sydney, pela preocupação com o meio ambiente e a sustentabilidade.”

Como exemplo, ele cita a despoluição da Baía de Sydney e a boa utilização posterior dos recintos esportivos especialmente construídos para o evento, ao contrário do que aconteceu em Atenas, na Grécia, em 2004. “Aprendemos com o Pan”, acredita o economista.

“As obras previstas no projeto já eram necessárias e foram apenas legitimadas pelos jogos. Ou seja, é possível imaginar que os gastos não vão prejudicar outras áreas”, diz o economista. “Além disso, é uma oportunidade única para profissionalizar o esporte no Brasil. O que não se pode é perdê-la usando os jogos para fins pessoais ou clientelismo.”

Resta ver quem ganhará a queda de braço pelo comando da organização. Nuzman tem em comum com o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, a capacidade de se perpetuar no poder e a dificuldade em dar transparência à entidade que comanda.

Ambos são discípulos de João Havelange, o homem que dominou a Fifa de 1974 a 1998, e que atualmente integra o Comitê Olímpico Mundial. E Havelange está longe de ser, digamos, uma figura inspiradora.