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    O futebol e a política não se misturam

    Rogério Schmitt

    O fato de o Brasil ter sido escolhido para hospedar, na próxima década, os dois maiores eventos esportivos do planeta (a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016) trouxe de volta a polêmica sobre as relações entre o futebol e a política.

    Todos conhecemos, por exemplo, a máxima de que as vitórias do Brasil na Copa do Mundo ajudam os governos a ganhar as eleições. Se essa tese estiver correta, a eventual confirmação do favoritismo brasileiro na Copa de 2010 na África do Sul facilitaria a vitória da ministra Dilma Rousseff nas eleições presidenciais.

    E a derrota nos gramados daria mais chances para o governador José Serra. Mas a história recente demonstra não haver correlação nenhuma entre o desempenho da Seleção na Copa e os resultados eleitorais.

    É verdade que houve coincidências nos já distantes anos em que o Brasil conquistou as suas três primeiras Copas – e nos quais o governo também foi vitorioso nas eleições. Não houve eleições presidenciais em 1958 (Copa da Suécia), em 1962 (Copa do Chile) ou em 1970 (Copa do México). Mas os partidos que ocupavam a Presidência da República (respectivamente o PSD, o PTB e a Arena) lograram eleger as maiores bancadas no Congresso nas três ocasiões.

    Acontece que essa correlação é totalmente espúria. Os partidos que estão no governo já elegem as maiores bancadas legislativas, independentemente dos resultados obtidos pela Seleção. Nas últimas 15 eleições para a Câmara, em apenas uma (2002) o partido que elegeu o maior número de deputados federais não era também o mesmo partido do presidente ou, pelo menos, uma legenda que integrava o núcleo da coalizão de governo.

    Por outro lado, na história mais recente, desde que as eleições presidenciais voltaram a ser realizadas nos mesmos anos das Copas do Mundo, sequer é possível observar mais qualquer associação entre o resultado dos pleitos presidenciais e o desempenho da Seleção Brasileira.

    Em julho de 1994, o Brasil sagrou-se tetracampeão na Copa dos EUA. As eleições presidenciais de outubro foram vencidas pelo candidato Fernando Henrique Cardoso, cujo partido (PSDB) já integrava a base aliada do presidente Itamar Franco. Na Copa da França de 1998, o tucano FHC foi facilmente reeleito mesmo com a derrota do Brasil para os donos da casa na final da competição.

    No entanto, o pentacampeonato obtido pela seleção em julho de 2002 na Copa realizada na Coréia e no Japão serviu de prelúdio para a vitória de um candidato oposicionista (Lula, do PT) nas eleições de outubro. Por sua vez, a eliminação precoce do Brasil na Copa da Alemanha em 20006 também não impediu que, assim como seu antecessor, o presidente Lula obtivesse uma reeleição relativamente tranquila alguns meses depois.

    Em outras palavras, não houve correlação entre futebol e política nas últimas quatro eleições presidenciais e nas últimas quatro Copas do Mundo. O PSDB e o PT foram vitoriosos em duas eleições cada um, mas os dois campeonatos mundiais do período (assim como as duas derrotas) coincidiram com o sucesso eleitoral de partidos diferentes.

    Em duas das três eleições vencidas pelos candidatos governistas, a Seleção havia sido derrotada nos gramados. A única eleição vencida por um candidato oposicionista foi antecedida por mais um título para o futebol brasileiro. Se há alguma correlação entre esses fatos, ela certamente não se dá na direção esperada.

    A Seleção Brasileira disputará as Copas de 2010 e de 2014 como uma das favoritas ao título (e tomara que seja vitoriosa em ambas!). Mais uma vez, entretanto, os resultados das duas competições certamente não servirão como variáveis premonitórias das eleições presidenciais subsequentes.

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