Cláudio Lembo

A preocupação das ordens religiosas, quando chegaram a esta América, centrava-se em dois temas. Divulgar a fé cristã e, para que ela ingressasse no coração dos catequizados, afastar os pecados usuais nestas bandas. Os pecados eram diversos dos praticados por toda a Europa. A usura, desconhecida. A gula – salvo pela tenra carne humana – pouco usual. Nada se cobiçava. Tudo era de todos. O trabalho metódico ausente.

Restava um pecado – segundo a visão européia – comum a todos os humanos. O pecado da carne. Os índios copulavam com alegria dos puros, sem culpas. Inocentemente.

Tudo espontâneo, sem qualquer traço de pundonor ou malícia. O corpo, dádiva espontânea da natureza, merecia contato com outro corpo ou outros corpos, como forma de agradecimento à existência.

As ordens religiosas assim não entenderam. Em todas as atitudes e atos dos índios encontravam as mais tenebrosas faltas. Eles eram impedidos de tudo. Vida em comum, só de acordo com a ortodoxia religiosa.

Muitas bibliotecas de cursos de Ciência Religiosa recolheram os Manuais de Confissão da época da descoberta. Um horror. As perguntas dirigidas, durante as confissões, a índios e índias aterradoras.

A imaginação dos missionários atinge níveis desproporcionais a diferença de valores existente entre os colonizadores e as populações autóctones. Nada parecido. Uns repletos de tormentos, os outros livres de censuras. O tempo passou. A visão da superfície apontou para a vitória dos colonizadores. Os costumes europeus, em sua aparente moralidade, foram impostos. Os índios confinados em aldeamentos.

Homens e mulheres separados durante as noites, após os longos dias de trabalho exigidos para cumprimento do preceito bíblico. Ganhará teu pão com o suor de tua face.

Os imigrantes forçados que chegaram em uma segunda etapa – os negros – idênticas exigências foram impostas. Nada de comunhão de corpos sem finalidade de procriação. Pecado absoluto. Mortal. Inferno garantido. Uma aparente conquista da catequese diuturna dos colonizadores. Ganharam. Apenas, porém, aparentemente. Passaram-se séculos e tudo se assemelhava estabilizado.

Mero cinismo. Os usos e costumes dos ancestrais eram mais fortes. Romperam, nos desvãos, da sociedade. Esta, com o passar do tempo, retomou muito de seu passado remoto.

Antes, foi a Constituição de 1988 que concebeu institutos novos que refletem velhas práticas. A união estável ou a família monoparental refletem a aceitação de antigos hábitos sociais.

O fenômeno encontra-se presente em toda a América Latina. Das costas do Pacífico às do Atlântico, percorrendo os altiplanos andinos ou as terras baixas do Chaco, explodem as raízes de um passado que permanece.

Os colonizadores, quinhentos anos passados, foram vencidos. Acontecimentos excepcionais ocorrem em todas as latitudes. Não há exceção. Em quase toda parte, ocorre uma onda de declarações de presidentes ou antigos presidentes das repúblicas latino-americanas reconhecendo filhos fora dos preceitos impostos pelos arautos da colonização.

É interessante. Indicam estas declarações que, mesmo no vértice da sociedade, os costumes anteriores à chegada dos ibéricos permaneceram. Os corpos ainda dominam as mentes.

Os costumes mais livres deste continente encontram profundas raízes nos povos que aqui habitavam. Os esforços catequéticos encontraram terreno hostil. Sobraram os hábitos ancestrais. Aparências ruíram. As notícias atuais, vindas de todas as partes, registram filhos de supremos magistrados, fora dos valores impostos. É fenômeno digno de melhor explicação.

Romperam-se as muralhas do constante cinismo oficial. A verdade começa a surgir por todas as partes. Cada pessoa analisará este acontecimento de acordo com seus preceitos.

Não poderão, contudo, fugir de uma realidade. A América Latina está se situando em novo patamar. Muito longe dos atos de hipocrisia disseminados pelos conquistadores. A verdade se sobrepõe ao cinismo. Venceu a ausência de culpa.