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    Opinião: Lições chilenas para o Brasil-2010

    Clóvis Rossi

    Eduardo Frei, o candidato da coalizão ora no governo (a “Concertación”), demorou apenas 30 segundos em seu discurso para felicitar o ganhador das eleições de domingo, o direitista e opositor Sebastián Piñera.

    Já avançada a noite eleitoral, entrada a segunda-feira, o derrotado pegou a família, foi até o hotel em que o adversário festejava a vitória para cumprimentá-lo ao vivo e em cores –e diante das câmeras de TV que transmitiam os eventos da eleição de domingo.

    Também ao vivo e em cores, a presidente Michelle Bachelet, derrotada embora extremamente popular, pegou o telefone, ligou para Piñera para cumprimentá-lo e dizer: “Espero que o Chile possa seguir pela trilha do progresso”.

    Piñera agradeceu e aproveitou para solicitar um favor: “Quero pedir seu conselho e ajuda para poder continuar seu trabalho porque sua experiência no governo é muito importante”. Bachelet topou na hora e avisou que, no dia seguinte, iria, a presidente em pessoa, à casa do ganhador para conversar. O incrível é que foi mesmo hoje, segunda-feira.

    Tem mais: a mulher de Piñera também fez questão de tomar o telefone –sempre diante de câmeras e microfones– para dizer a Bachelet: “Señora presidenta, quero dizer que, como mulher, me sinto orgulhosa de que a senhora tenha sido a presidente de todos os chilenos”.

    Se você viu ou ouviu algo semelhante no Brasil, me conte por favor porque minha memória, mesmo muito longa, não registrou nada parecido.

    Lição número 2

    A presidente Bachelet, filha de um militar morto sob tortura pela ditadura do general Augusto Pinochet, inaugurou faz pouco o Museu da Memória e dos Direitos Humanos. O lema do novo museu é simples: “Não podemos mudar nosso passado. Só nos resta aprender do que vivemos. Esse é nosso desafio”.

    Enquanto isso no Brasil, nem o governo constrói um museu parecido, embora aqui também tenha havido violação em larga escala dos direitos humanos, nem se anima a “aprender do passado”, que nem torturadores nem torturados podem mudar. Mas podem –e deveriam– contá-lo na íntegra.

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