IstoÉ

Desde 1989, era fácil para os movimentos sociais escolherem um candidato a presidente. O nome de Luiz Inácio Lula da Silva reunia todas as expectativas daqueles que defendem as bandeiras socialistas ou lutam por questões caras às minorias.

Depois de dois mandatos, porém, o PT – pela primeira vez na história do País – já não forma mais o consenso justamente entre aqueles que, há 30 anos, desenharam o mapa de seu DNA. Se algum dado pode mitigar esse desgaste da legenda, lá vai: nemo PT nem qualquer outro partido. Os movimentos sociais iniciam a campanha de 2010 divididos.

Dirigentes de várias organizações ouvidos reclamam de falta de diálogo em torno de propostas para o País e do distanciamento dos candidatos ao Palácio do Planalto. “Muita gente está defendendo o voto nulo”, revela dom Tomás Balduíno, representante da Comissão Pastoral da Terra (CPT) – entidade que, desde sua origem, é quase um sinônimo de PT.

Dom Tomás é avesso aos projetos do PSDB de José Serra, mas também não vê sentido em se alinhar à candidatura da ministra Dilma Rousseff. “A posição do pessoal é não votar na candidata do Lula, pois não há diferença com o governo do Fernando Henrique Cardoso”, diz.

Além da decepção por assistir Lula sustentar o que consideram o mesmo programa econômico “neoliberal” de FHC, os movimentos sociais têm pouca identificação com Dilma – coisa que com Lula ocorria de forma natural. No Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), muitos que sempre estiveram abraçados a Lula não têm nenhum diálogo com Dilma.

“Não conheço a Dilma pessoalmente”, diz Gilmar Mauro, um dos principais ideólogos do MST. “Nas reuniões com o Lula, ela nunca participava.” O coordenador nacional, João Pedro Stédile, deve participar da elaboração de uma pauta única de reivindicações dos movimentos sociais e das centrais para ser entregue aos candidatos.

Entre alguns militantes do MST, há muitos que votam em Marina Silva. O descontentamento na CPT, no MST e no Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) tem origem nas obras do PAC, principalmente nas hidrelétricas, que segundo eles expulsam ribeirinhos, índios e sem-terra.

A autorização para a construção da usina de Belo Monte, no rio Xingu, por exemplo, foi comparada nos sites do MST e do MAB a “mais um presente” do governo Lula para as construtoras. O MST também reclama do pouco avanço da reforma agrária e da disseminação dos transgênicos. Nas centrais sindicais, o quadro é semelhante. No dia 27 de janeiro, Lula reuniu-se com a cúpula do PDT e ouviu reclamações.

“Dilma, você não é o Lula, você tem que se aproximar dos trabalhadores, você está distante dos trabalhadores, dos movimentos sociais”, pediu o deputado Paulo Pereira da Silva, presidente da Força Sindical, que reúne 12 milhões de trabalhadores.

“Mas eu já fui à Força Sindical”, respondeu Dilma. “Pôxa, já faz mais de um ano.” A ministra fez um mea-culpa: “Eu estou longe do movimento social mesmo.” Ela prometeu que após o Carnaval vai visitar as centrais e as sedes dos movimentos sociais. Há dificuldade de unificar a Força porque o vice-presidente, Melquíades de Araújo, é ligado ao tucano Geraldo Alckmin e defende o apoio a Serra.

Na União Geral dos Trabalhadores, o presidente Ricardo Patah, que no passado chegou a ser vaiado entre os pares por apoiar Lula abertamente, agora prega uma consulta a todos os candidatos. “Vamos conversar com o Serra e a Dilma, em torno de um projeto de inclusão social e uma revolução na educação”, diz Patah. “Queremos discutir política de salário mínimo, terceirização e lucro de resultados.”

A única central que defende voto só em Dilma abertamente é a Central Única dos Trabalhadores (CUT), com sete milhões de filiados. “Sabemos quem não queremos de volta”, diz o presidente da CUT, Artur Henrique da Silva Santos. Com a intenção de atrair seus tradicionais aliados, o governo abriu o saco de bondades.

O Incra fechou convênio com a Confederação de Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil, investigada por desvio de recursos públicos. O vencimento do convênio é só em 2012. O Ministério da Saúde presenteou o MST com uma participação no Grupo da Terra, para formular políticas para o campo. Detalhe: mesmo sem CNPJ, o MST está na portaria publicada em dezembro no “Diário Oficial da União”.