A dentista Renata Iani Werneck percebeu que os pacientes que tinham cárie seguiam um padrão da doença presente em quase todas as pessoas da família. Normalmente mãe, irmãos e avós tinham o mesmo problema, ou, ao contrário, famílias inteiras exibiam dentes limpos, protegidos das bactérias que atacam os dentes.

Seus pacientes tinham hábitos regulares de higiene oral e sua alimentação não era diferente de uma família média brasileira. Por que as cáries gostavam mais de uma família do que de outra? Foi essa pergunta que a levou a estudar a influência genética sobre as cáries em sua tese de doutorado, defendida no fim de fevereiro pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Por meio de um modelo matemático, a análise de segregação complexa, ela conseguiu provar que os genes têm, sim, a ver com as cáries. E que pessoas mais suscetíveis têm até nove vezes mais cáries do que as que possuem proteção. “Eu não consigo saber qual é o gene, mas posso dizer que ele existe, que foi detectado pela análise”, diz a doutora.

Com isso, fica provado que se a sua mãe tem cárie, você tem 50% de chances de sofrer dessa doença também. Na família da própria Renata, mãe e irmã têm uma proteção bem forte, assim como ela, às cáries. Já seu pai, não.

A cárie é uma das três doenças crônicas mais comuns em consultórios dentários, junto com doença periodontal e maloclusão. Ainda hoje, ela afeta de 60 a 90% das crianças em idade escolar e a grande maioria dos adultos. Segundo Renata, duas variáveis ambientais contribuem para a predisposição da doenca: idade e gengivite. Quanto mais novo o paciente, mais proteção e, se ele não tem gengivite, dificilmente terá cárie.

A população escolhida para o estudo foi de 11 famílias estendidas (parentes entre si) da Colônia Santo Antonio do Prata, uma colônia de hansenianos fundada em 1920 no interior do Pará, que permanece isolada até hoje.

Trata-se de 451 indivíduos que têm os mesmos hábitos alimentares e de higiene oral, o que evita que as cáries se propaguem pelos fatores externos. Características como uma dieta rica cariogênicos, baixos padrões de higiene oral e ausência de flúor na água, substância conhecida por agir contra o desenvolvimento da cárie, fez da Colônia Prata uma população particularmente adequada para tal análise epidemiológica genética. “Sabe-se que a cárie sofre grande influência das variáveis ambientais.

Se a minha amostra tem muita força dessas variáveis, eu não consigo olhar para o efeito genético. Trabalhando com essa população, eu consegui controlar as variáveis antes da coleta dos dados”, diz. Segundo Renata, apenas 86 pessoas tinham hanseníase e esta doença não influencia na prevalência de cáries.

“Embora um componente genético para suscetibilidade à cárie já tenha sido demonstrado em pesquisas anteriores, a exata natureza e a extensão deste componente é ainda desconhecida”, diz ela.

A literatura científica mostrava apenas análises primárias, que apontaram para genes do sistema imunológico e do esmalte dentário como fator do desenvolvimento da cárie. Nenhum estudo havia observado essa relação sob uma análise complexa, como foi a de segregação complexa feita pela dentista. Agora que ela já sabe que existem genes relacionados à doença, irá colher DNA das pessoas que participaram da pesquisa e trabalhar todo o código genético para achar em quais regiões está essa característica. “Parece meio óbvio que a cárie esteja ligada a genes da dentição. Vamos trabalhar com o genoma humano inteiro”, afirma Renata.
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