Brasília chegou aos 50 anos com uma economia pujante e representativa no cenário nacional, extrapolando sua função de cidade administrativa. A capital também cumpriu à perfeição uma das principais metas por trás de sua construção, a de contribuir para a povoação e o desenvolvimento econômico da região central do país.

No entanto, ao longo dos cinquenta anos de existência da cidade, foi verificada uma acentuação da distribuição desigual de renda. Além disso, planejar os rumos da economia do Distrito Federal para os próximos anos é necessário, já que, até aqui, o crescimento deu-se à deriva.

As conclusões são do estudo Brasília: Impactos Econômicos da Capital no Centro-Oeste e no País, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e realizado a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em 1960, ano da inauguração da nova capital, o Centro-Oeste era uma região agreste e inexplorada, cujo Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas produzidas) correspondia a 2,46% do nacional. Nos anos que se seguiram à entrega da cidade, o indicador cresceu ano a ano e, em 2007, a produção correspondia a 9,28% da total do país.

Brasília, com um PIB inexpressivo frente ao do Brasil em seus primeiros anos, em 2007 atingiu uma produção equivalente a 3,76% da nacional. A capital federal também é responsável, sozinha, por 40,45% da riqueza produzida pelo Centro-Oeste.

Todo esse potencial econômico está concentrado principalmente no setor de serviços. O segmento, que surgiu para atender às necessidades do funcionalismo público recém-instalado na nova capital, empregava 19,59% da população do DF em 2008.

Em segundo lugar, como maior empregador, vem o comércio, que reunia 17,77% dos ocupados em 2008. A administração pública é a terceira no ranking dos setores mais representativos, empregando 13,86% da população em atividade.

Desigualdade
Apesar da força demonstrada pelos setores de prestação de serviços e comércio de mercadorias, a iniciativa privada de Brasília enfrenta o problema de não conseguir fazer frente aos altos salários pagos pelo poder público. Os ganhos mensais dos funcionários de empresas privadas ficam muito aquém dos que têm os servidores públicos. Assim, a disparidade de renda na capital federal, fica acima da média nacional.

Em 1978, 18 anos após a inauguração, o índice de Gini(1) apontava nível 0,60 de desigualdade para o país e de 0,55 para o Distrito Federal. Em 2008, a situação se inverteu, com o coeficiente em 0,63 para o DF e 0,55 para o Brasil. Ou seja, enquanto as diferenças de renda caíam no país, se estagnavam no Distrito Federal.

Para o presidente do Ipea, Márcio Pochmann, traçar políticas de desenvolvimento para o futuro respeitando a vocação da capital federal — que tem estrutura limitada para comportar empreendimentos industriais ou agrícolas, por exemplo — é a saída para a situação.

“A falta de planejamento pode gerar um círculo vicioso de ausência de emprego, de coesão social e até de aumento das atividades ilegais”, afirmou, durante coletiva de divulgação da pesquisa realizada pela instituição. “Se Brasília souber aproveitar seu potencial de serviços, pode oferecer opções mais sofisticadas dentro desse segmento, no âmbito de entretenimento ou no cultural”, acrescentou.

A pesquisa do Ipea analisando o impacto econômico de Brasília sobre a Região Centro-Oeste e o país mostrou também uma média acima da nacional de mulheres chefiando lares no DF.

Em 1978, a proporção de pessoas do sexo feminino à frente do sustento das casas na capital federal ficava em 13,04%, patamar próximo ao do país, que era de 14,12%. Em 2008, o percentual saltou para 43,66% no Distrito Federal, 10 pontos percentuais acima dos 33,43% verificados no Brasil.

1 – Distribuição de renda
O coeficiente ou índice de Gini é uma medida desenvolvida pelo estatístico italiano Corrado Gini. É comumente utilizada para calcular a desigualdade de distribuição de renda, mas pode ser usada para qualquer distribuição. Ele consiste em um número entre 0 e 1, onde 0 corresponde à completa igualdade de renda (onde todos têm a mesma renda) e 1 corresponde à completa desigualdade (onde uma pessoa tem toda a renda e as demais nada têm).

Estabilidade e desafio
Formado em história pela Universidade de Brasília (UnB), o servidor público Artur Marciano Lins Ferreira, 39 anos, jamais exerceu a profissão. Há 15 anos, ocupa o cargo de técnico administrativo do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). A estabilidade, os bons salários e o exemplo dentro da família o levaram a optar pela carreira estatal.

“Meu pai era servidor da Presidência da República. Comecei a fazer concurso muito novo, quando tinha 18 anos. Durante a faculdade, passei em um concurso do Tribunal Regional Federal. Depois, fui chamado para esse do Ministério Público. Já estou no final da minha carreira e estou satisfeito”, conta Artur, que tem uma renda mensal em torno de R$ 6 mil. Para Artur, a escolha de ser funcionário público é natural em Brasília. “Até a oferta de vagas é grande”, comenta.

Contramão
Na trilha oposta à de Artur Ferreira, a veterinária Luciana Mendes de Souza, 28 anos, decidiu apostar suas fichas na iniciativa privada. Há nove meses, ela abriu seu próprio negócio, a pet shop Amor aos Bichos, no Sudoeste. “Trabalhei sempre como funcionária em outras pet shops, e queria ter a minha. Vem dando certo, o mercado aqui é muito bom”, diz.

Para ela, o alto poder aquisitivo da maioria da população do Distrito Federal torna Brasília atraente para empreendimentos nos setores de comércio e de serviços. “Asa Norte, Asa Sul e Sudoeste garantem uma rentabilidade muito grande”, afirma Luciana.
CorreioBraziliense