Alberto Marlon*

Estavam em atitude suspeita. No interior do ônibus os passageiros observavam o grupo que estavam no ponto da Vila Serrana, terminal da Avenida Lauro de Freitas. Eram três, pés descalços, shorts, camisetas de malhas, cabelos por cortar e a pele morena, umedecida pela persistente chuva que caía naquele fim de tarde. Um comia um espetinho de carne, outro pedia dinheiro aos passageiros e o terceiro estava absorto, percorrendo com o olhar a estante de livros do projeto Ponto Literário.

Deu uma pausa em sua procura, olhou furtivamente para os lados e, timidamente, estendeu a mão e ousou pegar uma obra. Folheou-a. Depois arriscou pegar outra, não sem outra olhada desconfiada. Repetiu a operação quatro vezes. Por fim deteve-se em um livro grosso, ficou alguns segundos observando o retrato da capa: um senhor, cabelos brancos, bigode fino e uma expressão amigável.

Com um movimento nos lábios o menino soletrou o título: “O Poeta do Mulungu”. Deu uma leve risada e repetiu: “Mulungu”. Mais abaixo, tentou soletrar, gaguejou. Tentou novamente, desistiu diante do nome complicado do autor: “Erathósthenes Menezes”. Deu outra olhada ao redor e continuou sua exploração, folheou o volume, deteve-se. Soletrou mudamente algumas palavras, foi pra outra página, depois mais outra.

Permaneceu nesta operação por alguns minutos até que foi despertado por um peteleco na orelha, dado por um de seus colegas de aventuras. Readquiriu o semblante desafiador de menino de rua, disse alguma coisa ao parceiro, deu uma olhada desconfiada ao redor, virou-se, encostou-se ao colega e, com um gesto rápido, ocultou o livro embaixo da camisa e saiu furtivamente.

Alguns passageiros que estavam no interior do ônibus viram a cena. Uma senhora, com ares de correta dona de casa, resmungou: “Olha lá, por isso que a cidade tá pestiada de ladrão. Ficam aí, tudo solto, aprendendo tudo que não presta. E dá no que dá: roubam usam droga e matam pais de família. É tudo igual ao Jararaca. Depois esse pessoal dos direitos humanos ficam querendo prender os policiais porque matam esses bandidos. ”

Alguns passageiros acenaram positivamente com a cabeça, concordando com a opinião da respeitável senhora. Um homem, que estava em pé ao meu lado, foi mais à frente: “Tem que matar mesmo”.

Por meu turno pensei em fazer um discurso e argumentar que o moleque – mesmo não sabendo disso – não roubou nada, que aqueles livros estavam ali pra qualquer um pegar e que, mesmo se o tivesse roubado, seria “pra uma boa causa”, que traficante não se interessa por livro, de forma que o “produto do furto” não seria trocado por crack. T

eria dito também que acreditava que aquele livro, pela atitude do menino, não viraria fogo ou seria utilizado em função menos nobre. Talvez o tivesse furtado por mera vaidade ou pra exercitar suas habilidades ilícitas ou, quem sabe, aquele livro iria povoar suas fantasias e conduzi-lo à sua salvação social. Discursei pra mim mesmo e optei pela espiral do silêncio.

Com um chiado o motorista do ônibus fechou a porta e, após duas aceleradas, pôs o veículo em movimento.

Vitória da Conquista, de março de 2010.

*Alberto Marlon – www.cronicasconquistenses.blogspot.com