Época

Nesta semana, chega ao fim o programa que fez o telespectador desligar a TV, levantar do sofá e sentar em frente ao computador. Lost — exibido nos Estados Unidos pela ABC e no Brasil pelo AXN — é o décimo lugar no ranking de audiência da TV americana, mas é o programa que mais repercute na internet.

Está à frente de sucessos históricos como o show de calouros American Idol, como mostrou o estudo divulgado terça-feira (18) pela empresa Networked Insights. Os motivos do sucesso incluem tanto as inovações em termos de narrativa como a janela de distribuição das empresas de TV, que chegavam a exibir a série com atraso de até um ano em relação aos EUA, o que fez parte do público migrar para a internet.

“Vai ser impossível falar de televisão no século 21 sem mencionar Lost”, afirmou o ator Daniel Dae Kim, que interpreta o coreano Jin Kwon, em uma entrevista recente. É verdade. A série entrou para a história da cultura pop ocidental ao brincar com os limites da linguagem televisiva. A narrativa que aposta em várias linhas do tempo, o que já não é didático, ficou ainda mais confusa com viagens no tempo e realidades paralelas.

Sem mencionar os episódios, que só fazem sentido se o espectador tiver assistido aos anteriores. A história de um acidente aéreo em uma ilha do Pacífico mostra que é mais complicada do que parece. Quem abriu o caminho para Lost existir foi Twin Peaks, série criada nos anos 1990 pelo diretor David Lynch, que deixava o mistério de um assassinato no ar: Quem matou Laura Palmer? Twin Peaks durou duas temporadas e tinha um mistério. Lost durou seis e tem vários.

“A pirataria surge nas brechas da indústria. E não existe polícia no mundo capaz de combater isso. Se as empresas quiserem vencer a pirataria, devem competir com ela”, diz Ronaldo Lemos, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas. Não é à toa que o AXN vai exibir o final de Lost só com dois dias de atraso. Mas ainda falta para atingir a demanda por qualidade dos espectadores.

A TV em alta definição é uma realidade faz tempo no mundo dos downloads. As legendas feitas na internet saem mais rápido e são melhores que as feitas pelos canais. “A indústria precisa melhorar, já que a tendência é que o acesso à banda larga cresça”, afirma Ronaldo.

Os roteiristas de Lost criaram um novelo de fios. Agora precisam desatar o nó. Vão conseguir? Quem espera descobrir a solução para todos os mistérios deve se frustrar. “Alguém que assiste Star Wars fica se perguntando o que é ‘a Força’?”, perguntaram recentemente os Damon Lindelof e Cartol Cuse, produtores executivos da série.

Para os dois, alguns elementos da mitologia da série não precisam ser explicados. Eles argumentam que Lost, no fim das contas, é uma série sobre dramas pessoais e não de mistério. Difícil acreditar nisso depois do antepenúltimo episódio, do qual só saem cinco personagens do núcleo principal vivos.

É provável que a série se perca. Os poucos mistérios respondidos até agora usaram recursos narrativos água com açúcar. Jacob, um dos personagens mais enigmáticos, chama os losties, como são chamados pelos fãs, para perto de uma fogueira e explica uma das maiores perguntas da série: por que o grupo caiu naquela ilha? Mike Ryan, crítico da revista americana Vanity Fair, reclamou: “Sério que depois de passar fome, desidratação, sofrer ataques de urso polar e explodir uma bomba nuclear, tudo se resolve desse jeito simples?”
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