IstoÉ

Aposentado dos gramados há dois anos, Romário, o artilheiro dos mil gols e grande responsável pela conquista da Copa de 1994, vai jogar agora no campo da política.

Candidato a deputado federal do Rio de Janeiro pelo PSB, Romário Faria de Souza, 44 anos, quer provar que também é bom de voto. Pretende focar seu trabalho em projetos para jovens carentes e para crianças com necessidades especiais.

Istoé – que o levou a ingressar na política?
Romário – Fui convidado a entrar na política há oito anos, mas sempre me esquivei por achar que não é minha área. Sou um cara de comunidade – na minha época, a gente chamava de favela mesmo. Vim do Jacarezinho (favela carioca), passei necessidade.

Agora que definitivamente não jogo mais futebol, não quero ser treinador e ser dirigente do América não vai contra eu ser político. Cheguei à conclusão de que essa era a minha hora. O Brasil atravessa um momento legal para o esporte. A próxima Copa do Mundo será aqui e o Rio de Janeiro vai sediar a Olimpíada daqui a seis anos.

Então, acredito que, através do esporte, eu possa ajudar os mais jovens, principalmente os das comunidades. Tirar essas crianças desse mundo – vamos chamar de errado – que a gente vê. Cada dia cresce mais esse negócio de crack, muita droga. As crianças saindo do colégio para virar fogueteiro de tráfico. Através do esporte, quero mudar isso.

Istoé – Por que escolheu o PSB?
Romário – Acho o PSB um partido muito simpático. Tem essa coisa do social, já milita nisso, tem experiência nessa área. Passei para o presidente do partido (deputado federal Alexandre Cardoso) algumas vontades minhas, que seriam os meus objetivos, o que eu quero abraçar, as causas, e ele me apoiou 100%. Daí a escolha pelo PSB.

Istoé – Então você não é, ideologicamente, um socialista?
Romário – Essa coisa de ideologia vai muito de cada um, do momento. O meu momento, hoje, é o seguinte: é fazer coisas que tenho certeza que posso fazer, mas que, infelizmente, só posso fazer na política.

Istoé – Quais são as promessas do candidato Romário?
Romário – Sou pré-candidato, só posso oficializar a candidatura a partir de 26 de junho. O que posso dizer é o seguinte: se Deus quiser, se eleito, vou desenvolver projetos para crianças e jovens. Sei que existe muita coisa nessa área, mas vou tentar fazer mudanças, reajustes, porque tenho consciência do que posso ­realmente fazer. Como deputado federal, vou correr atrás disso. E outra situação: tenho uma filha com síndrome de Down, sei quanto é difícil para um pai acompanhar o tratamento desses filhos e quero ajudar as famílias de crianças portadoras de necessidades especiais. Um levantamento que fizemos mostrou que de 40% a 50% dos pais, principalmente de crianças que nascem em comunidades, não têm condição financeira de dar um tratamento adequado aos filhos especiais. Tenho obrigação de fazer algo. Isso não é promessa, é afirmação.

Istoé – Como pensa em transformar seus projetos em realidade?
Romário – A partir do momento que você entra na política com o objetivo de realmente querer modificar alguma coisa, de querer fazer algo em benefício do povo, tenho certeza que consegue. São duas plataformas (crianças carentes e especiais) que, acho, todo mundo quer. Eu acredito que lá dentro do Congresso existam algumas pessoas que fazem bons trabalhos nesses campos. E, se for honestamente, eu vou ser mais um e vou tentar melhorar mais.

Istoé – E a Copa? O que acha da Seleção Brasileira?
Romário – Como torcedor, só podemos torcer. Rezar bastante, cada qual na sua religião, para que o Brasil ganhe. Mas essa não é a Seleção ideal para mim. Gostaria que tivesse o Ganso (meia do Santos), principalmente pelo fato de o Kaká não estar bem. Mas não podemos esquecer que o Ganso nunca vestiu a camisa da Seleção Brasileira e não sabemos como seria. Acho que o Adriano deixou fugir a oportunidade de disputar a Copa. Acredito que se ele não tivesse feito algumas coisas, principalmente fora de campo, poderia ir. Agora, só posso desejar ao Dunga boa sorte, que ele confie na sua ideia e vá até o final. Se ganhar, será mais um título. Se o Brasil perder, porrada no Dunga! (risos). Ele “tá ligado”. Não “tô” dizendo que é o Romário que vai dar porrada. É o Brasil.

Istoé – Dizem que você está quebrado financeiramente e que, por isso, resolveu ser candidato.
Romário – Tive alguns problemas em 2009 que não gostaria de ter passado. Tenho ações rolando contra o Vasco, Fluminense e Flamengo. Minha vida complicou. Mas, no final do ano passado, 90% das coisas se resolveram e, hoje, voltei a ter a vida que sempre tive. Vivo bem e dou qualidade de vida boa para minha esposa e meus filhos. E essa coisa de falar que o Romário está duro, que o Romário faz isso ou aquilo é porque eu sou um cara popular. Romário é assim: ou gostam ou não gostam. E a minha entrada na política não tem nada a ver com o fato de eu ter resolvido ou não meus problemas financeiros. É como se eu tivesse dando uma forra a essas pessoas que me veem como um exemplo, por eu ter saído de uma comunidade, ter passado por um monte de necessidades, ter conseguido superar tudo isso e ser o Romário que todo mundo sabe quem é.

Istoé – Tem ídolos na política?
Romário – Não. No primeiro ano em que o Lula ganhou, nem tinha votado nele, mas depois votei e hoje vejo o Lula como um cara que temos que respeitar pela trajetória. É um cara que começou de baixo e hoje é um dos grandes presidentes modernos, respeitado no mundo todo. Eu acho que o Lula não é um ídolo dentro da política, mas um dos caras pelos quais eu tenho grande respeito, admiração e que me dá orgulho de ser brasileiro.

Istoé – Qual é o seu conceito sobre a classe política?

Romário – A política hoje mudou muito. Tenho acompanhado umas atitudes muito importantes de alguns órgãos como o Ministério Público ou a Polícia Federal, que denunciam e ajudam a fazer justiça e a limpar a política. Aquela ideia de que “eu faço o que eu quero e nunca vai dar em nada” acabou, tenho certeza. Então, acho que há uma política um pouco mais séria do que há alguns anos. O caso do Mensalão de Brasília é um exemplo. Políticos que caminham por esse lado errado vão ter o que teve o Arruda (José Roberto Arruda, ex-DEM, governador cassado do Distrito Federal). Com certeza, eu não quero estar metido com esses grupos e, no que depender de mim, ajudo para fazer com que esse tipo de político seja punido. Vocês vão ver o Romário atuante nessa área também.

Istoé – O sr. pretende, no Congresso, fazer algo pela classe dos jogadores?
Romário – O futebol é algo complicado no Brasil. Então, não vou dizer que vou resolver tudo. Mas vou tentar, vou sentar com as pessoas que conhecem leis, com dirigentes de clubes, advogados e tentar fazer mudanças. Por exemplo, uma coisa que eu acho que é muito negativa para o futebol brasileiro é jogador com 15, 16 anos ir embora para o Exterior. Existe alguma possibilidade de modificar isso? Se existir e eu puder ajudar para que isso mude e o jogador não saia prejudicado, e muito menos os clubes, vou participar dessa corrente. Mas vou logo adiantando que nunca a lei é boa para todo mundo.

Istoé – Como assim?
Romário – A Lei Pelé foi boa para alguns segmentos em determinados momentos. Quem menos manda no jogador hoje é o clube. Antigamente, os clubes eram carrascos dos jogadores. Mas não podemos esquecer que o clube é o formador do jogador, é o que faz a base, dá o necessário para o garoto se tornar um jogador. E acho que a lei não incentiva o desenvolvimento de um trabalho sério na base. Se continuar assim, daqui a dez anos, poucos clubes vão sobreviver. Espero que a Lei Romário – que ainda não existe, mas que pode existir – seja boa para uns e não muito boa para outros.

Istoé – Como será sua campanha?
Romário – Mais do que nunca eu vou torcer para que a multidão esteja onde eu estiver. Sempre joguei em estádios cheios e sempre fui a muitos lugares em que as pessoas tinham curiosidade de conhecer o Romário. Espero que essa curiosidade aumente para ver o Romário político. Vou andar pelas ruas, ir às comunidades, aos municípios, ao metrô, etc. Vou vestir essa camisa. Segundo o partido, o candidato pode se eleger com 60 mil, 70 mil votos, mas o meu objetivo é passar de 90 mil. Eu estou amarradão em ser político. Estou até perdendo uns quilinhos para compensar a época da campanha, quando eu vou ganhar alguns. O coro vai cantar!!!

Istoé – Quer transformar os eleitores em “peixes”, como você chama os amigos?

Romário – Essa é mais uma prova de que eu não sou político: para mim, amigos são amigos, eleitores são eleitores. Os que votarem em mim e se tornarem meus amigos vão ser chamados de “peixe” também. Dentro da minha profissão, o maior título que conquistei foi o Mundial de 1994. As pessoas se lembram bem, eu cheguei e falei: vou trazer esse título para o Brasil. E trouxe. Então as pessoas sabem que eu sou um cara firme nos meus propósitos, sou de decisão e nessa minha nova luta na política não será diferente. As pessoas das classes A, B e C podem me ver como o cara que quer ajudar as classes D e E.

Istoé – Como é ser pai de uma criança com necessidade especial?
Romário – Uma vez papai do céu apontou para mim e falou: esse é o cara. Esse é um dos motivos que me fazem reafirmar essa frase, porque só cai no colo de quem merece um anjinho desses, entendeu? No primeiro momento em que você tem a notícia, parece que cai o mundo na sua cabeça. Você se pergunta: caramba, eu mereço isso? Mas, depois de algumas horas ou minutos (engasga de emoção), é um anjo! A Ivy é uma coisa tão maravilhosa que, por ela, eu me sinto hoje na obrigação de lutar por centros de tratamento para crianças com necessidades especiais. Só os ignorantes imaginam que ter um filho Down é um castigo. Ela foi a grande bênção que tive na vida. E vou falar mais: trocaria o título de 1994 por ela. Quem não quer ser campeão do mundo? Mas eu trocaria por ela.

Istoé – Quantos filhos você tem?
Romário – Só seis de três casamentos e uma pulada de cerca (risos).

Istoé – Pretende ter mais?

Romário – Na verdade, imaginei ter 11 filhos, mas as coisas foram complicando, as mulheres passando e cheguei à conclusão de que seis está bom. Fiz vasectomia há cinco anos. Mas posso reverter. Ou adotar, o que seria bem legal.