Não é só na seara política que temas relacionados ao aborto provocam controvérsia. Até entre ginecologistas há divergências em relação ao método contraceptivo de emergência, também chamado de pílula do dia seguinte.

Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostra que um em cada cinco médicos considera o método, introduzido no país por uma lei de 1996, como provocador de um microaborto. Para 56,9%, o contraceptivo interfere na implantação do óvulo no útero.

E apenas 22,3% afirmaram que a ação da pílula se dá antes da fecundação, conforme mostra a literatura científica. Para o autor do estudo de mestrado, o biólogo William Alexandre de Oliveira, o resultado aponta que questões religiosas e pessoais interferem na visão dos profissionais, mesmo diante de evidências médicas.

“É difícil mesmo explicar como quase 80% dos médicos têm uma percepção errada do método contraceptivo de emergência. Só podemos atribuir isso a verdades pessoais”, diz Oliveira. A pesquisa dele consultou 3.337 ginecologistas de todo o país — cerca de 17% do total de profissionais no Brasil ou 34% dos que atendem no Sistema Único de Saúde (SUS).

Rogério Bonassi Machado, presidente da comissão de anticoncepção da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), considera os resultados “surpreendentes”.

“Nunca pensei que houvesse esse tipo de confusão entre os próprios ginecologistas, uma vez que o mecanismo de ação da pílula é amplamente divulgado e confirmado. Não há nada de abortiva nela, uma vez que ela age antes da fecundação”, explica Machado.

Os dados também causaram estranheza em Cid Carvalhaes, presidente da Federação Nacional dos Médicos (Fenam). “Esse posicionamento me parece vir de um rigor exagerado. É difícil afirmar que exista concepção num período de 24 horas. Talvez sejam ginecologistas presos a convicções religiosas que temos de respeitar”, opina o médico.

Embora pregue a aceitação de verdades pessoais, Carvalhaes afirma que é preciso debater o tema do aborto. “Não de forma oportunista como na campanha presidencial. Mas como um problema de saúde pública que precisa ser tratado do ponto de vista médico, e não religioso. Se eu fosse ginecologista, não faria um aborto por convicções pessoais, mas não condenaria quem fizesse”, afirma Carvalhaes.
CorreioBraziliense