Nas mãos, braços e língua de um pequeno garoto estão as marcas das queimaduras provocadas pela lâmina de uma faca aquecida ao fogo. Em seu corpo, com peso de seis quilos abaixo do normal para uma criança de sete anos, sinais das sucessivas surras. Essas são as características de D.S.O., torturado e aprisionado dentro da própria casa, localizada na Rua Direta de Pituaçu.

Após denúncias anônimas, o próprio pai Márcio Gerson Reis dos Santos e a madrasta, Ana Lúcia Santana Conceição, ambos com 29 anos, foram presos em flagrante, na tarde de anteontem. O menino confirmou os maus-tratos e permanece sob os cuidados do Juizado de Menores de Salvador.

O casal convivia há 2 anos e com ele moravam três crianças, uma menina de 11 anos, um bebê de 1 ano e meio, ambos filhos de Ana Lúcia, e D.S.O., filho de Márcio. Após a denúncia, policiais do Serviço de Investigação da Delegacia de Repressão a Crimes Contra a Criança e o Adolescente (Derca) compareceram à residência e ficaram chocados com a cena presenciada.

“O que mais me chamou atenção era como os filhos dela estavam bem tratados e como o menino estava magro e faminto. Fiquei chocado com as marcas de queimaduras no corpo. Nunca vi uma cena dessas”, afirmou o agente responsável pela custódia.

Após a separação, o garoto passou a conviver com o pai até a chegada da madrasta, mas as surras se intensificaram após o nascimento do bebê. Preso nas carceragens da Delegacia de Tóxico e Entorpecente (DTE), Márcio afirmou que sempre reclamou com a esposa sobre o tratamento dado ao filho, mas ela nunca acatava. Ana Lúcia não nega as acusações e afirma que o marido está preso injustamente, pois toda agressão foi feita por ela.

“Não tinha intenção em machucá-lo, mas ele me desobedecia muito. Na hora não pensava que estava passando dos limites, só quando vi as fotos na delegacia é que me arrependi. Não sei por que sentia isso, mas eu ficava nervosa e batia sem parar”, justificou a acusada.

Diferente do padrão apresentado por vítimas de violência, D.S.O. é um garoto extrovertido. Aos policiais ele contou detalhes sobre tudo que sofreu. A criança apresentou no corpo e nos órgãos genitais as bolhas provenientes de queimaduras e os cabelos arrancados pela madrasta. Também foram identificadas marcas de surras com cintos e palmatórias de madeira.

O garoto ainda relatou que a madrasta o amarrava, espancava e o obrigava a comer fezes e vômito, alegando que comida custava caro e não podia ser desperdiçada.

De acordo com Ana Lúcia, a desobediência do garoto e a divisão dos alimentos eram as principais causas do espancamento. “Meu marido trabalha com serviços gerais e nem sempre a gente tem comida à vontade, por isso ele é tão magro desse jeito. Eu tentava repartir as coisas entre as crianças, mas ele acordava na madrugada e pegava comida escondido.

Certa vez, meu filho mais novo ficou 15 dias sem leite por causa dele. Por isso que eu batia e queimava as mãos, mas estou muito arrependida por tudo”, afirmou, sob lágrimas. Com os familiares morando no município de Olindina, a 200 km de Salvador, os filhos de Ana Lúcia permanecem sob os cuidados do Conselho Tutelar.

MEDO DA CADEIA – Com um hematoma no olho esquerdo, a acusada se disse arrependida do crime e pediu proteção, pois estava sofrendo ameaças das outras detentas do Derca.

“Elas estão ameaçando me bater e disseram que quando as visitas forem embora, vão abusar sexualmente de mim. Estou desesperada”, desabafou. Em contraponto, as 35 detentas, divididas em três celas, negaram agressão a Ana Lúcia. “O que ela fez é de revoltar, a maioria aqui é mãe e ficou chocada com esse caso. Mas se a gente tivesse batido nela, ela não estaria desse jeito”, gritou uma das presas.

Preocupados com a situação, os agentes responsáveis pela carceragem tomaram providências para garantir a integridade física de Ana Lúcia. Segundo a polícia, o casal vai responder pelo crime de tortura e pode cumprir pena de dois a oito anos de prisão.
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