Depois de realizar quatro encontros marcados pela linguagem da cooperação no enfrentamento da crise financeira global, os líderes dos países do G-20 se reúnem nesta semana na Coreia do Sul sob a ameaça de uma guerra cambial que pode ter efeitos devastadores sobre o comércio mundial.

O cenário no qual presidentes e primeiros-ministros das maiores economias do mundo se encontrarão ficou mais incerto com o anúncio de que os Estados Unidos injetarão US$ 600 bilhões na economia até meados de 2011, aliado à tendência de agravamento dos desequilíbrios globais que estiveram na origem da crise iniciada em 2008.

O fraco crescimento dos países ricos completa o quadro que pode desencadear a erosão do consenso dentro do G-20. “Há risco de o espírito de cooperação global desaparecer ou enfraquecer e dar lugar a uma atitude de cada um por si”, disse em Pequim na semana passada o economista Don Brean, professor da Universidade de Toronto e diretor do G-20 Research Group, com sede no Canadá.

O “salve-se quem puder” é a principal característica da guerra cambial, na qual cada país atua individualmente para promover a depreciação ou evitar a apreciação de sua moeda, com o objetivo de estimular suas exportações e, por tabela, o crescimento econômico.

Na avaliação de Brean, as chamadas desvalorizações competitivas são apenas uma prévia da adoção de medidas protecionistas e retaliações que podem afetar o comércio global.

Ceticismo. Michael Pettis, professor de Finanças Internacionais da Universidade de Pequim, é cético quanto à possibilidade de um acordo no âmbito do G-20 que afaste a ameaça de uma guerra cambial.

Desde a eclosão da crise atual, em 2008, Pettis sustenta que uma das maiores ameaças à recuperação global é uma guerra comercial semelhante à que o mundo experimentou no período de 1929 a 1934, quando o comércio mundial encolheu 70% em razão de barreiras impostas pelas nações.

A origem do problema atual é que todos os países querem crescer com o aumento de suas exportações e a conta não fecha, já que alguém tem que comprar. A situação foi agravada pela política monetária expansionista dos Estados Unidos, que vai provocar a desvalorização do dólar e a valorização de grande parte das demais moedas – ou pelo menos as dos países que têm câmbio flutuante.

“O aumento da quantidade de dólares na economia vai levar à desvalorização do dólar em relação a todas as outras moedas e provocar incerteza e volatilidade no mercado global de câmbio”, observou Brean.

Em tese, a China deveria espelhar a desvalorização do dólar com a valorização de sua moeda, já que é o país que lidera o grupo de nações que possuem superávit em conta corrente, em contraposição aos deficitários norte-americanos.

Mão de ferro. Mas como o câmbio chinês é controlado com mão de ferro pelo governo e outros países asiáticos intervêm para conter a alta de suas moedas, o peso do ajuste pela desvalorização do dólar recai nas demais nações, entre as quais o Brasil, que luta para evitar a elevação no valor do real.

Segundo Pettis, a única maneira de os outros países ampliarem suas fatias no bolo de exportações é o aumento do já enorme déficit comercial norte-americano, o que Washington não permitirá. “O mundo todo está tentando crescer por meio das exportações para os Estados Unidos e o governo fará alguma coisa, como elevar tarifas e aumentar o protecionismo.”

Em sua avaliação, a responsabilidade pela tensão atual não é apenas dos Estados Unidos, mas também dos países superavitários, como China, Japão e Alemanha. A única solução possível para evitar a degradação do cenário mundial é uma ação coordenada que ataque a origem dos desequilíbrios globais, marcados pelo excesso de consumo nos Estados Unidos e de poupança na China.

Desequilíbrios. No momento posterior à crise, os dois países conseguiram reduzir seus desequilíbrios em conta corrente, mas eles voltaram a se agravar nos últimos meses, o que evidenciou que os fatores que estiveram em sua origem não desapareceram.

O economista-chefe do Banco Mundial na China, Ardo Hansson, disse na semana passada que a correção dos desequilíbrios vai exigir a apreciação do yuan e a depreciação do dólar. “A questão é como obter isso de maneira gradual.”

No encontro preparatório da reunião de líderes que realizaram no mês passado, os ministros de Finanças e presidentes de Bancos Centrais do G-20 concordaram em caminhar na direção de taxas de câmbio mais influenciadas pelo mercado e pelos “fundamentos da economia” e prometeram evitar “desvalorizações competitivas” de suas moedas.

Porém não há previsão de medidas concretas a serem adotadas nem qualquer sanção a países que eventualmente violem o que foi acordado. Na opinião de Brean, é pouco provável que os presidentes e primeiros-ministros avancem em relação aos compromissos assumidos por seus ministros.
Estadão