novembro 2010
D S T Q Q S S
« out   dez »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930  


Tudo por amor! Cronologia do sacrifício

Carla Andrade*

Cenas típicas de Conquista não acontecem só durante o dia, o creme de la creme acontece nas madrugadas. Basta “dormir”, ou não, uma noite dentro de um carro em frente ao Fórum João Mangabeira para testificar essa afirmação.

Daí, você cria também outras verdades: casar é difícil; tem muuuita gente querendo casar; você fica sabendo que só oito casais dão os nomes por dia e o gran finale: nas sextas-feiras, pelo “funcionamento” do Fórum são apenas quatro.

Chegamos ao Fórum às 9 da noite da segunda feira, dia 15. Fomos os últimos da, digamos… fila, pois tinha gente lá desde às 2 da tarde. À nossa frente 7 casais sonhadores como nós, desejosos de iniciar uma vida a dois.

A gente percebe que fazer tudo por amor leva as pessoas a até ganharem um troquinho, R$ 20 por um lugar na fila, e muitas histórias para contar. As horas vão passando, as pessoas começam a contar um pouco sobre suas vidas, as dificuldades pra estar ali, as dificuldades do casamento, tem até gente amargurada na fila, mas ela não diminui. O tempo? Passa. E já são 2 da manhã.

Às 3 da manhã chegam alguns retardatários, imaginando que seriam os primeiros da fila. Ledo engano…
– Quem é o último da fila?

Pergunta o já frustrado rapaz que chega de táxi, fez tudo por amor, acordando de madrugada para realizar o sonho do casamento e descobre que tem que voltar no outro dia. E volte cedo, hein rapaz…

As quatro da manhã chegam os vendedores de sonhos, quer dizer eles vendem chocolate quente, cafezinho, bolo… Trocam idéia com os nubentes e com os que guardam lugar na fila. E aí a gente percebe que todos fazem tudo por amor, já que quem vende algo na rua, àquela hora da madrugada, o faz por amor a alguém.

E o comércio é pujante!
– “Olha a torta, pão com presunto…” Tem até briga para ver quem vende mais
ou tem mais clientes.
– “Essa área aqui é minha” – diz a vendedora.
Há quem jogue gasolina no fogo. Mas a turma do “deixa disso” não permite mais atrito. Já é desgastante demais estar numa fila, numa espera que parece não acabar.

Às 5 da manhã uma moça, atrasada, se desespera ao saber que a cota do dia já se esgotou. Fica pasma ao saber que dormimos na fila e que tem gente esperando sua vez desde as duas da tarde do dia 15. E olhe que é a terceira vez que ela vem!

– “Uma humilhação, uma falta de respeito”, desabafa.

São seis horas da manhã, o movimento começa a ficar intenso. Tem bastante gente na fila do SAC também. A essa altura do campeonato não chega mais ninguém, todos sabem que, ou dormem na fila ou pagam 20 reais.

As sete o sono não vem mais, as pessoas conversam muito. Do outro lado da rua, algo pra marcar aquele dia ainda mais, o celular de alguém toca a nossa música, uma canção gospel do grupo Quatro por Um:

Enfrento o que vier,
Qualquer situação
Com você não há limites…

E é assim que tem que ser. Não ter limites para o amor, para os nossos sonhos. Infelizmente somos reféns de burocracias que nos ofertam alguns obstáculos, mas é preciso vencer.

Nada de compara a primeira emoção de sentar em frente à oficial, agora já às 15 horas do dia 16, terça-feira, entregar todos os documentos e marcar a data do nosso casamento. E olha que tivemos, ainda, alguns imprevistos, mas o amor, em toda a sua plenitude, é romântico, benévolo, rico por existir e nenhuma adversidade aborrece por completo o coração de quem ama.

Esse relato não é só pra elucidar a rotina da marcação de casamentos no Fórum João Mangabeira em Vitória da Conquista, é também um relato de amor, de cumplicidade, de entrega total à pessoa que eu amo.

E se for preciso… Enfrentaremos tudo outra vez!

* Carla Andrade – Funcionária Pública – formanda em Relações Públicas – 8º período

1 resposta para “Tudo por amor! Cronologia do sacrifício”

  • Lenisson - Radialista disse:

    Me uno a você na dedicação e despojamento pelas pessoas que amamos, mas este sacrifício se torna infundado quando falamos de direitos que temos e somos desrespeitados.Uma pergunta que fiz durante processo semelhante que passei na fila do forum João Mangabeira foi: Como colocar a justiça na justiça? Minha esperança é que as autoridade competentes (Juizes) seja complacentes pelo menos aos direitos humanos e não deixem que mais pessoas fiquem expostos e a mercê na rua se degladiando por uma senha em uma cidade de aproximadamente 400 mil habitantes.

Deixe seu comentário



WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia