A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) convocou para segunda-feira uma reunião, em regime de urgência, com os presidentes das principais companhias aéreas, além de representantes da Infraero, Polícia Federal, Receita Federal e Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea).

A agência está preocupada com o risco de problemas nos aeroportos em dezembro, durante as festas de fim de ano. Os executivos que comandam Gol, TAM, Webjet e Avianca confirmaram presença, e a Azul deve enviar seu diretor de operações.

O receio desta vez não é a repetição do caos no controle de voo, como ocorreu em 2006, no rastro do desastre do Boeing da Gol.

O risco vem da combinação de três fatores: a afluência em massa de passageiros estreantes, vindos da nova classe média; a venda de passagens além da capacidade das companhias, e o despreparo dos aeroportos em receber usuários que desconhecem os procedimentos de embarque.

Segundo o Estado apurou, a prática de venda de passagens para voos extras ainda não autorizados está preocupando a diretoria da Anac. Apenas uma grande companhia teria vendido cerca de 10 mil passagens acima da capacidade dos voos programados para o período.

Num evento da Câmara de Comércio França-Brasil realizado na noite de sexta-feira no Rio, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, confirmou que a venda excessiva de passagens está entre os assuntos a serem tratados no encontro marcado para amanhã.

“(Vamos) estabelecer uma programação, como a gente fez no ano passado, para ter tranquilidade em relação a horários, atrasos, evitar venda de passagens excessivas, como eles faziam, evitar overbooking, todas essas coisas. Ou seja, vamos estabelecer regras neste sentido”, disse o ministro.

“Historicamente, no fim de ano, as empresas vendem entre 10% e 15% de bilhetes acima da quantidade de assentos dos aviões. Também não é raro o pedido de voos extras e a venda de passagens para esses voos antes da autorização formal”, disse uma fonte do setor.

Primeira vez

“Calculamos que pelo menos 1,5 milhão de pessoas vão viajar de avião pela primeira vez em janeiro e fevereiro”, disse Renato Meirelles, sócio-diretor do instituto Data Popular, especializado em pesquisas de consumo das classes C, D e E. De acordo com projeção do instituto, de julho deste ano a julho de 2011, 8,7 milhões de pessoas farão sua primeira viagem aérea. “É mais do que o dobro do movimento de passageiros registrado na África do Sul durante a Copa”, comparou.

Para atender o aumento de demanda no período de alta temporada, as companhias aéreas estão colocando voos extras, o que pode trazer uma sobrecarga ao já tumultuado sistema de aeroportos do País. “Vemos que está aumentando o número de voos. Isso pode acarretar em congestionamento”, afirmou o presidente do sindicato dos controladores de voo, Jorge Botelho.

A probabilidade de atrasos em cascata é grande, avaliou Botelho. “Na medida em que se coloca um maior número de voos, tem-se um menor espaçamento de tempo de ocupação da pista de pouso. Se acontece um imprevisto, há atrasos, e isso vai refletir em outra localidade, porque as empresas estão com suas malhas amarradas.”

Aos voos regulares e adicionais colocados para atender a demanda pontual, somam-se os fretamentos para operadores de viagens. Só a CVC, líder no segmento, fretará 2.660 voos para a alta temporada, um acréscimo de 25% ante igual período de 2009.

Vigilância

A diretora do Sindicato Nacional dos Aeronautas Graziella Baggio cobra vigilância da Anac sobre os voos fretados. “Há quatro anos a TAM teve um problemão. A CVC solicitou uma série de aeronaves para milhares de passageiros. Como a empresa não podia deixar de fazer os voos da operadora, porque haveria multa, acabou abandonando os voos normais.” Em 2006, a prática de overbooking pela empresa gerou caos às vésperas do Natal.

O diretor de Comunicação da Gol, Hélio Muniz, afirmou que os fretamentos tiveram um crescimento “grande” este ano, sem mencionar números. Ele disse que a empresa ainda não solicitou voos extras à Anac, mas não descarta fazê-lo. “Não temos previsão ainda, mas sempre há a possibilidade de abrir voos nessa época. Esse processo é rápido.”

O planejamento da Azul para o fim do ano inclui a contratação de cem agentes de aeroporto e reforço na equipe de call center. O presidente da companhia, Pedro Janot, afirmou que os esforços estão sendo feitos não apenas para responder à demanda de alta temporada, mas para acompanhar o crescimento da frota da empresa, que sai de 15 aeronaves em julho para 26 até o fim do ano.

Janot acredita que a companhia não terá grande dificuldade de lidar com um número maior de passageiros, pois já opera com taxas elevadas de ocupação, próximas a 85%. Ele avalia, no entanto, que outras empresas poderão ser mais impactadas.

“Não seria um transtorno operacional para a gente. Já as companhias que operam com ocupação de 62%, 63% podem chegar a 85% nesta temporada. Aí realmente o impacto é maior nos aviões da Gol e da TAM, por exemplo, que são de porte superior”, comentou.

As duas maiores companhias aéreas do País também informaram ter planos de contingência. A Gol terá dois aviões de reserva e tripulações extras para assumir os voos. Na TAM, são cinco aeronaves de prontidão e houve reforço do pessoal de aeroporto. No total, a empresa fecha o ano com uma frota de 151 aviões, 19 a mais que no fim de 2009.
Estadão