“Aqui tem mais carro do que bicicleta, e a maioria é carro novo. Também tem apartamento que está alugado por R$ 150 e até por R$ 200”.

Com essa declaração, uma das moradoras mostra os contrastes entre os habitantes do Residencial Nova Conceição, em Feira de Santana, o primeiro entregue pelo programa Minha Casa, Minha Vida no país.

Se, de um lado, estão as antenas de TV por assinatura, veículos novos e de luxo e portas de madeira maciça, do outro estão contas de água e de luz atrasadas e um grande esforço para pagar a prestação de R$ 50.

Em um condomínio construído para famílias com renda de até três salários mínimos, chama a atenção a picape Nissan Frontier prata, de placa NTT-5794 – cujo valor ultrapassa R$ 90 mil -, pertencente a um morador, conhecido como Maranhão, que, segundo os vizinhos, comercializa colchões.

“Ele comprou dois apartamentos, um no 303 do bloco 2, onde ele mora com a mulher, e outro para o irmão, no 102 do bloco 21. Ele pagou R$ 10 mil por cada um”, conta G. R. Já outra vizinha afirma que ele mora no apartamento que o sogro adquiriu. Ele até substituiu a porta principal, de madeira oca, por uma de madeira nobre, destoando das demais.

Ontem, Maranhão foi flagrado pela reportagem do Correio saindo do condomínio em sua picape carregada de colchões. Ao ver que estava sendo fotografado, acionou o chefe da segurança do condomínio.

Milícia
A ação de uma milícia é outro problema apontado pelos moradores do Residencial Nova Conceição. “Tem um morador chamado Giovani que é o chefe da segurança. Ele cobra de cada apartamento R$ 20 todo mês e quem não tem dinheiro pra pagar fica sem receber as contas de água e de luz, porque eles prendem na portaria. Os seguranças até andam armados aqui dentro”, conta O.F. “Além disso, quando vem algum parente nosso fazer visita, eles não deixam entrar, porque não abrem o portão pra visitantes de moradores que não pagam a taxa”, diz, revoltada.

As contas de água e luz também são alvo de reclamação dos moradores. “Minha conta de luz veio R$ 150, mas, quando a gente recebeu o apartamento, a moça da Caixa disse que era pra vir no máximo R$ 25”, diz uma moradora.

“Tem apartamento aqui que tem o teto todo de gesso e o dono ainda diz pra todo mundo que tem outro apartamento em Salvador”, falou, indignado, T. L. Ele reclama da injustiça de ter gente que pode pagar TV por assinatura e internet banda larga morando nos imóveis que foram feitos para os que realmente necessitam. “Enquanto isso, conheço gente com oito filhos que está sem uma casa pra morar”, comenta.

Mapeamento
O gerente regional de construção civil da Caixa em Feira de Santana, José Gilberto Bastos, diz que a instituição ainda está mapeando os casos de vendas irregulares para, em seguida, tomar as providências judiciais. Segundo ele, a Caixa tomará os imóveis de volta. “Quem vendeu vai perder o benefício. E quem está atualmente não continuará ocupando o imóvel. A venda é proibida”, conta.

Ele ressalta ainda que a instituição financeira teve conhecimento do primeiro caso de revenda ainda no final de dezembro. “Ficamos sabendo que um beneficiado estaria anunciando a venda em um jornal local, mas nada foi comprovado”. Segundo Bastos, num primeiro momento, a Caixa já localizou no condomínio 46 casos de venda irregular. Ao todo, existem 440 unidades residenciais no local. Ainda segundo ele, especula-se que os apartamentos tenham sido vendidos por preços entre R$ 1 mil e R$ 15 mil.

O secretário de Habitação do município, Gilberto Rui, disse que a maior responsável pelo programa, e consequentemente sua fiscalizadora, é a Caixa Econômica. “A prefeitura trabalha apenas na seleção das pessoas pelo critério estipulado, mas é a Caixa que escolhe quem será beneficiado”.

Ainda assim, ele disse que a prefeitura está participando de um grupo de trabalho que fará um levantamento das pessoas que venderam os imóveis irregularmente. Segundo Rui, para evitar situações como essa, será criado um programa de permanência das pessoas nos imóveis.
Correio*