ederlane amorimDomingo, 3 de maio de 2015. Para muitos, apenas mais um dia. O mesmo não pode ser dito ao Vitória da Conquista. Neste domingo, 3, diante do Bahia, o clube pode entrar para a história do futebol estadual.

Profissionalizado em 2005, o Bode, que está invicto, tenta se sagrar campeão baiano pela primeira vez. Em entrevista ao A TARDE, o presidente Ederlane Amorim, mineiro de 48 anos, mantém discurso humilde e o respeito em relação ao adversário: “Nada está ganho. O Bahia é o favorito”.

Também não esquece a freguesia diante do Tricolor. Entretanto, ele não deixa de se empolgar com o triunfo no duelo de ida, em casa: “Foi um jogo atípico. Para mim, não era para ter sido menos que 7. O placar moral seria 7 a 1″.

Ele revela os segredos da boa campanha, como o dinheiro da Copa do Brasil, nomes experientes, boas condições de trabalho aos jogadores e salário em dia. Porém, mesmo com um eventual título inédito, o ex-meia-atacante, formado nas divisões de base do Vitória, se mostrou temeroso quanto ao futuro do Alviverde, que, encerrada a competição, fechará suas portas até setembro, quando estreia na Copa Governador do Estado. “Vejo o futuro com extremo pessimismo”, disse, com a perspectiva dos clubes do interior.

Aos 10 anos de existência, seu Vitória da Conquista chega à primeira final e está prestes a sagrar-se campeão baiano. Como você está se sentindo?

Antes de lhe responder, queria contar um pouco sobre a história do clube. O Esporte Clube Primeiro Passo de Vitória da Conquista surgiu de um projeto filantrópico idealizado por mim em 2001. A princípio era um trabalho voltado para a inclusão social, com objetivo de preparar os futuros atletas para o clube profissional. A partir de 2003, viramos Associação Desportiva Primeiro Passo Vitória da Conquista.

Essa proposta foi consolidada com o êxito em vários campeonatos na cidade e com a expansão do então Projeto Primeiro Passo para as regiões de Utinga e Itapetinga. Somente em janeiro de 2005 foi fundado o Esporte Clube Primeiro Passo de Vitória da Conquista, legalmente instituído, equipe profissional, tendo como meta colocar a cidade de Vitória da Conquista novamente no cenário das grandes jornadas esportivas. Em 2006, a convite da FBF (Federação Bahiana de Futebol), disputamos a Segunda Divisão e fomos campeões invictos. A partir daí, o time deslanchou. Fizemos seis finais consecutivas da Copa Governador do Estado, somos tetracampeões e agora, estamos na final da Primeira Divisão. Estou muito feliz! É uma sensação de dever cumprido. É coisa de Deus mesmo. Em tão pouco tempo, um rendimento como este… É um sonho.

A goleada de 3 a 0 sobre o Bahia no jogo de ida lhe dá tranquilidade para a partida na Fonte Nova?

A goleada aqui (em Vitória da Conquista) foi algo circunstancial. Nem o mais otimista torcedor acreditaria. Foi um jogo atípico. Pra mim, não era para ter sido menos que 7. O Tatu perdeu dois gols, ainda tivemos um pênalti não marcado. O placar moral seria 7 a 1. O gol deles seria por conta da bola na trave de Maxi Biancucchi. Mas já é passado. Futebol é efêmero. O Bahia é o favorito. É bicampeão brasileiro. Eles têm a obrigação de serem campeões por tudo o que representam no Brasil, não só no estado. Estamos engatinhando ainda. Mas o Bahia é o Bahia…

Essa sua ‘deixa’ tem haver com o fato de o Bahia costumar ‘aprontar’ diante do Vitória da Conquista?

Sabemos da força do Bahia, é claro. Nos últimos jogos este ano, fomos bem contra eles – dois triunfos. Mas, por exemplo, na nossa história, nunca vencemos o Bahia em Salvador. O máximo foi empatar. Além disso, eles nos tiraram, praticamente, da espécie de final de 2008. Não me esqueço. Apesar de ter sido um quadrangular, se tivéssemos vencido aquela partida, seríamos campeões. Perdemos de 5 a 0. Não fomos nem vice. Em 2012, faltando dois minutos, estávamos com a mão na final, tomamos o gol do Rafael Donato. Então ficou isso… Mas eu gosto daquela passagem bíblica: “A briga entre Davi e Golias”. Na história, Davi ganhou e assim espero que ocorra neste domingo. Que possamos sair de Salvador com o título.

Você se mostrou temoroso quanto à arbitragem local. É algo que lhe preocupa?

Desde o jogo daqui (em Vitória da Conquista), já tinha solicitado ao presidente da FBF, Ednaldo Rodrigues, um árbitro de fora (da Bahia). A dúvida no estado é tão grande, que no ano passado tanto Bahia quanto Vitória não aceitaram um árbitro local. Gostaria de ter um pouco mais de tranquilidade com a partida sendo dirigida por um árbitro de fora. O Bahia não precisa de nenhum tipo de ajuda de arbitragem para vencer.

O Vitória da Conquista chega invicto à decisão. Qual foi a fórmula do seu sucesso nesta temporada?

Nós não nos programamos para chegarmos invictos à final. Desde 2005, tenho o mesmo discurso aos jogadores: “Vamos brigar pelo título, ser a melhor equipe, a melhor defesa, o melhor ataque…” Coloco metas altas para o sucesso aparecer. Acho que nosso segredo foi poder ofertar ao elenco: boas condições de hospedagem, alimentação, apoio psicológico, médico… Além disso, pagamos em dia, até as premiações. Esses pontos influem em campo. Também demos sorte na montagem do elenco.

Já que você falou de elenco, o time tem jogadores tarimbados, como Viáfara, Fausto, Tatu. Como conseguiu trazer estes atletas?

Nosso time tem uma folha salarial de R$ 150 mil mensais. Fizemos muito esforço para montar este elenco. Vou lhe ser sincero, só consegui graças à participação do time na Copa do Brasil – diante do Palmeiras. Por baixo, líquido, tivemos um lucro de R$ 350 mil. Incluindo aí cota da CBF, bilheteria, patrocínios. Com este montante, banquei dois meses da folha do time, ou metade do Campeonato Baiano. Se não fosse essa participação (na Copa do Brasil), não teríamos nunca a condição de contratar Paulo Almeida, Viáfara, Fausto, Tatu…

Por esta lógica então, explica-se o fato de o Vitória da Conquista, que foi campeão da Copa Governador do Estado em 2014, ter optado pela vaga na Copa do Brasil de 2015, e não na Série D?

Exatamente. Sem dúvidas, que, na época, a escolha foi monetária. Sabíamos que seria um risco, poderíamos não ter encarado, por exemplo, o Palmeiras. Mas não me arrependo por ter feito esta escolha. Com esse time, chegamos à final.

Se conseguir o troféu, o que o Vitória da Conquista pode fazer de diferente em relação a, por exemplo, Colo Colo e Bahia de Feira, campeões em 2006 e 2011, respectivamente? Eles prometeram, mas não transformaram o título estadual no primeiro passo para a projeção nacional.

Pois é. O Bahia de Feira foi campeão baiano e, praticamente, terceirizou a equipe. O Colo Colo caiu para a Segunda Divisão do Baianão, voltou agora. Ao meu ver, pela dificuldade de não ter sequência no calendário. Esse ponto precisa ser revisto, as pessoas responsáveis precisam procurar mecanismos para que essa situação não se repita. Nosso futuro, por exemplo, também não é nada promissor. Não vou iludir ninguém. Principalmente, a imprensa que nos tem rotulado como a terceira força do estado.

Não gosta deste termo?

A questão não é gostar ou não. Respeito o trabalho de vocês, da imprensa. Mas nunca se vai ter uma terceira força no estado desse jeito. É difícil se tornar a terceira força sem um calendário.

Você se refere ao fato de, após a final de hoje, o time só voltar a atuar a partir de setembro na Copa Governador do Estado?

Exatamente. Vou me desfazer de boa parte do elenco a partir de terça-feira. O contrato de muitos jogadores termina. Vou ter que montar um novo elenco e contar com a sorte de dar ‘liga’ novamente. Para não ficarmos parados, iremos investir na infraestrutura do clube, fazer melhorias na estrutura, na parte física, no programa de sócio-torcedor, dar ênfase maior na base, no processo de garimpagem de promessas… A verdade é que nenhum time do interior se prepara para ser campeão baiano. Já começa a disputa com contratos de risco. Acaba o Campeonato Baiano, já desfaz o time todo. Agora, por exemplo, pelo regulamento deste ano, posso ser campeão estadual e não irei disputar nenhuma competição nacional no segundo semestre. Já tenho as vagas nas Copas do Brasil de 2016 e do Nordeste de 2016, mas a Série D deste ano será disputada pela Jacuipense e pelo terceiro colocado do Baianão. Fecharemos as portas.

Mas, durante o conselho arbitral do campeonato, em novembro de 2014, quando foi definido o regulamento do Baianão de 2015, nenhum presidente de clube questionou esse fato?

Não. Nós realmente não nos atentamos quanto a isso: o fato de um clube do interior chegar à final. Esta é um observação que, sem dúvidas, iremos colocar em pauta no arbitral para o próximo campeonato.

O que pode ser feito para melhorar o futebol baiano?

Vou citar apenas um fator: o calendário. A FBF teve 12 datas para este ano, tiveram times que sobreviveram com apenas oito jogos. Em 2008, fizemos 26 jogos. É preciso encontrar equilibrio. Como vou contratar um bom jogador? Como vou fidelizar um sócio-torcedor se não tenho um calendário fixo? Além disso, precisamos de uma profissionalização na gestão, uma melhora na cota de televisão. Vejo o futuro com extremo pessimismo. Falta investimento, principalmente no segundo semestre. Disputei quatro anos na Série D, representando a Bahia, de 2011 a 2014, com um cenário totalmente adverso a uma realidade de acesso. Não consegui formar elenco, não tinha recurso. O torcedor, no segundo semestre, acaba não acompanhando o time por diversas razões. Pela qualidade do elenco, pela qualidade dos adversários, pela questão da televisão, pelo frio. Então, existem essas coisas que acabam atrapalhando.

ATARDE