Pouco a pouco, o pequeno João Fernando, de cinco meses, começa a responder aos estímulos das inúmeras sessões de fisioterapia às quais já foi submetido no curto período de vida. As pequenas conquistas do garoto, portador de microcefalia, são um retrato da situação da doença na Bahia.

A passos lentos, os números relativos à incidência da doença vem decaindo: a média de notificações semanais de casos suspeitos de microcefalia na Bahia apresentou uma redução de 83% no início do segundo semestre deste ano.

Do final de 2015 até fevereiro de 2016, cerca de 60 casos desse tipo foram notificados semanalmente no estado. Em junho de 2016, este número caiu para 10.

Após cerca de seis meses apresentando altas, o número de confirmações da doença no estado se manteve nos últimos três meses, de acordo com o boletim mais recente divulgado pelo Ministério da Saúde (MS), no dia 30 de junho: são 263 casos.

A situação, no entanto, continua preocupante. A Bahia ocupa o primeiro lugar no ranking de estados com o maior número de casos em investigação (suspeitos) de microcefalia, com 651. Tal quantidade de registros é maior do que a soma dos casos notificados nas regiões sul, norte, sudeste e centro-oeste (344).

Ainda assim, especialistas apostam em uma conjuntura menos tenebrosa para os próximos meses. A queda no número de casos suspeitos e a estabilização das ocorrências confirmadas, segundo eles, são fruto da imunização natural da população e do aumento das campanhas de combate ao mosquito Aedes aegypti , transmissor do zika vírus, associado ao desenvolvimento da microcefalia.

“Quando o vírus chegou, encontrou uma população sem imunidade, então acabou atingindo um número significativo de pessoas. Passado mais de seis meses do surto, a população já caminhando para um processo de imunização natural, que se dá quando o organismo desenvolve imunidade como resposta à invasão do vírus”, explica o infectologista José Roberto Menezes.

Rogério Gomes, coordenador do Instituto Baiano de Reabilitação (IBR) – uma das unidades da capital que oferecem atendimento especializado para crianças com a malformação – acredita em uma futura redução da incidência da doença por conta das campanhas nacionais de conscientização.
“Em 2015, as pessoas ficaram muito assustadas com o aparecimento da microcefalia. Por causa disso, se dedicaram mais ao combate ao mosquito. Hoje, a população está muito mais preocupada em acabar com os focos de água parada, por exemplo”, afirma.

Dedicação
Há oito meses, o termo microcefalia entrou de forma inesperada no vocabulário da dona de casa Geilza Almeida, 35. Natural do município de Jequiriçá (a 258 km de Salvador), ela só descobriu que João Fernando era portador da doença aos nove meses de gestação.

Geilza sequer teve tempo para fraquejar diante da notícia: após o nascimento do bebê, deixou o emprego de auxiliar em uma creche da capital baiana e se mudou, com o companheiro e as duas filhas, para sua cidade natal. “Sem a ajuda da família, lá do interior, seria impossível cuidar e sustentar meus filhos”, conta.

A decisão custou a ela um esforço que só mesmo a dedicação imensurável de uma mãe é capaz de submeter. Durante três dias na semana, ela encara cerca de oito horas para ir e voltar de Jequiriçá. A intenção é que João seja submetido a um tratamento de qualidade.

“É uma viagem bastante cansativa, tanto para mim, quanto para ele. Mas não vou deixar meu filho virar uma estatística ruim de jornal. Vou fazer o impossível, se precisar, para que João se desenvolva, cresça com saúde e seja feliz”, disse.

A batalha da família de Geilza é compartilhada por Gilvanete da Silva, 25. O susto ao descobrir a doença de Levi Gustavo, de oito meses, fez antecipar o trabalho de parto. “Tenho mais dois filhos e meu marido é deficiente físico. Como vou cuidar de todos?”, questiona.

Foram apenas 12 horas entre o diagnóstico e o momento de afagar o bebê nos braços pela primeira vez. Aquele instante selou um pacto que vai durar a vida inteira. “Não é só ele que precisa da gente. Nós também precisamos dele”, diz.
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