*Por João Cássio

cantor-joao-cassioPor incrível que pareça, política, espiritualidade e cultura já foram temas comuns nas letras dos rock’s nacionais que tocavam nas rádios brasileiras. Os Engenheiros do Hawaii foi uma das bandas mais relevantes nesse sentido.

O álbum “Simples de Coração” (1995), por exemplo, mistura sonoridades de rock, MPB, psicodelia e tradicionalismo gaúcho com letras contendo lirismo e críticas objetivas à sociedade.

Unindo conteúdo de qualidade e apelo pop, a canção “A Promessa” é a mais interessante enquanto crítica ao sistema. Nela, encontramos um paradoxo essencial do nosso tempo: nunca recebemos tanta informação e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão desinformados. Ou seja: “Estou ligado a cabo a tudo o que acaba de acontecer”, mas “Não ouço nada o que eu ouço não diz nada”.

A canção denuncia diretamente o viés mercadológico da influência da mídia nas mentes das pessoas. “A propaganda é a arma do negócio. No nosso peito bate um alvo muito fácil”. Porém, usando a canção como mote para uma análise mais profunda, é possível encontrar “interferências” mais sutis e, por isso mesmo, mais perigosas da máquina propagandista à psique da população dormente. Omitindo detalhes, distorcendo fatos, modificando contextos ou simplesmente desinformando, consegue-se formatar as opiniões dos indivíduos a respeito de qualquer assunto e, assim, induzir seus comportamentos em relação ao mesmo.

Isso acontece porque a ação humana se baseia no conteúdo de seu imaginário: as pessoas fazem o que conseguem imaginar. Sendo assim, a postura mais correta seria a busca incessante de conhecimento real para enriquecer esse imaginário e aumentar as alternativas, a liberdade. Porém, na maioria das vezes, apesar de se ter à disposição uma ferramenta potencialmente maravilhosa como a internet, os indivíduos não se impõem uma busca ativa pela verdade – dá trabalho! – e se contentam com narrações enlatadas dos acontecimentos publicadas nos noticiários e nas obras de ficção.

Agindo assim, os próprios indivíduos facilitam o trabalho dos “donos” do sistema em produzir na alma da população as idéias e sentimentos mais convenientes aos seus projetos de poder. E, como a consciência do povo fica restrita às informações transmitidas pelo sistema, seu raio de ação fica limitado aos valores impostos pela própria máquina. Eis a manipulação perfeita: aquela que é sutilmente consentida pelo manipulado.

A busca sincera e incansável pela verdade – ou ao “sol que nos aqueça” – é a melhor arma contra essa manipulação. E esta busca deve começar seguindo o conselho do Templo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. Afinal, se a verdade está dentro de cada um, não há male mais perigoso do que o autoengano.

*jornalista, cantor e compositor.